Blog do site

Imagem de Administrador Usuário
por Administrador Usuário - Monday, 13 Feb 2017, 14:02
Todo o mundo
Publicado por David Riazanov


Quando Marx se convenceu de que o sistema capitalista só poderia ser aniquilado com a organização revolucionária da classe interessada e que essa classe era, na sociedade burguesa, o proletariado, empurrado por todas as suas condições de existência para a luta contra o capitalismo; – ele decidiu estudar a história do proletariado.

Que elementos formam a classe trabalhadora? Em que condições históricas difere das outras classes da sociedade burguesa? Em que forma é organizada como uma classe separada? Buscando uma resposta a estas perguntas, Marx imediatamente chegou ao estudo dos sindicatos.

É verdade que, por volta de 1845, não se podia encontrar sindicatos completamente desenvolvidos a não ser na Inglaterra; e ainda estavam em uma fase primitiva, um pouco difusa de organização. Os socialistas daquela época os desprezavam, ou tinham uma grande desconfiança deles, considerando-os como um desperdício de força e meios. Os estudiosos burgueses viram nele apenas uma iniciativa de pessoas ignorantes, condenadas ao fracasso, porque estavam em contradição com as "leis eternas" da economia política.

Era preciso uma visão brilhante para perceber, nesses fracos embriões do movimento sindical, as primeiras células de organização da classe trabalhadora. Já em 1847, em sua polêmica contra Proudhon, que negava qualquer significado às coalizões operárias, Marx assinalou que os sindicatos eram um produto inevitável da grande indústria, como a própria classe operária. Seu grau de desenvolvimento em um país era o melhor indicador do lugar ocupado por esse país na hierarquia do mercado mundial.

“Os primeiros ensaios dos trabalhadores para se associarem entre si sempre se verificaram sob a forma de coalizões.

A grande indústria aglomera num mesmo local uma multidão de pessoas que não se conhecem. A concorrência divide os seus interesses. Mas a manutenção do salário, este interesse comum que têm contra o seu patrão, os reúne num mesmo pensamento de resistência — coalizões. A coalizão, pois, tem sempre um duplo objetivo: fazer cessar entre elas a concorrência, para poder fazer uma concorrência geral ao capitalista. Se o primeiro objetivo da resistência é apenas a manutenção do salário, à medida que os capitalistas, por seu turno, se reúnem em um mesmo pensamento de repressão, as coalizões, inicialmente isoladas, agrupam-se e, em face do capital sempre reunido, a manutenção da associação torna-se para elas mais importante que a manutenção do salário.” (1)

Os sindicatos lutam obstinadamente contra os capitalistas. Às vezes, eles surgem vitoriosos da luta, mas a vitória lhes custa caro. Para preservar seus frutos, eles devem fortalecer sua organização. O principal resultado de sua ação não é o sucesso imediato, é a crescente coesão da organização. Na ação - uma verdadeira guerra civil - todos os elementos essenciais das futuras grandes batalhas estão se reunindo e se desenvolvendo. Pouco a pouco, o âmbito da luta é ampliado. Ela finalmente consegue abraçar os círculos mais ativos da classe trabalhadora. Torna-se então a luta da classe operária contra a classe capitalista, e qualquer luta de classes é necessariamente uma luta política, isto é, uma luta pelo poder.

Encontramos no Manifesto Comunista o mesmo pensamento expresso em termos ligeiramente diferentes. Examinando o desenvolvimento histórico do proletariado, o Manifesto menciona sua organização sindical.

A luta do proletariado, diz ele em essência, começa com a sua existência. A princípio, os trabalhadores lutam isoladamente; em seguida, os da mesma empresa são agrupados; então os do mesmo ramo industrial em uma determinada localidade unem-se contra certos exploradores. Pouco a pouco, formam-se coalizões mais amplas, defendendo os salários. As associações permanentes são finalmente criadas para apoiar os trabalhadores em tempos de luta ativa. Ao mesmo tempo, a organização profissional ou local se torna política e abraça toda a classe trabalhadora do país. Depois da revolução de 1848-49, Marx teve que se estabelecer por muito tempo na Inglaterra. Foi assim capaz de observar a nova fase do movimento sindical britânico. Os cartistas, o partido político da classe trabalhadora, haviam compartilhado a derrota do proletariado europeu. Os operários ingleses, contudo, recuperaram-se primeiro. E, por volta de 1860, recomeçaram a lutar energicamente nos sindicatos, doravante à frente do movimento de greve. O seu sucesso suscitou até certo entusiasmo pelos sindicatos, considerados por alguns como a única e mais eficaz forma do movimento operário.

Marx, naquele momento, estava estudando a sociedade capitalista. Já tinha conseguido penetrar no mistério da exploração burguesa e iluminar o processo de formação da mais-valia (lucro). Ao contrário dos economistas burgueses, ele havia estabelecido que os salários eram apenas o resultado de uma transformação do valor do trabalho - ou da força de trabalho - vendido pelos trabalhadores aos capitalistas. Ao exigir que o trabalhador trabalhe mais do que o necessário para recuperar o valor da mão-de-obra adquirida, o fabricante recebe uma certa quantidade de mais-valia. Entre os capitalistas e os operários, uma luta incessante rodeia esse trabalho extra e os salários. Esta luta pela redução da jornada de trabalho e pela preservação dos salários, é sustentada entre os trabalhadores pelos sindicatos, o que lhes permite opor sua força coletiva aos empregadores. Mas tem limites definidos, estabelecidos pelo próprio mecanismo da sociedade capitalista. Enquanto o trabalho permanecer uma mercadoria, seu preço só pode subir dentro de certos limites. E se tomarmos uma média - observada ao longo de vários anos, durante os quais a produção capitalista passa por diferentes fases de calma, animação, prosperidade, choque, estagnação - vemos que o salário nunca é tão elevado que permita ao trabalhador se libertar da necessidade de vender o seu trabalho.

Pouco depois de 1860, os trabalhadores ingleses chegaram à convicção de que era essencial alargar as bases da sua organização, completar e reforçar a ligação com os trabalhadores estrangeiros, franceses e belgas. O resultado destes esforços foi a Associação Internacional dos Trabalhadores, de cuja fundação (1864) Marx participou. Assim, Marx teve a oportunidade de entrar em contato prático e próximo com os sindicatos ingleses, cujos líderes mais proeminentes pertenciam ao Conselho Geral da Internacional. Com eles, participavam do movimento os membros das antigas organizações socialistas e políticas, os discípulos de Owen, os cartistas, os cooperativistas, que estavam longe de entender a importância do movimento sindical.

Marx aproveitou esses desentendimentos e, no verão de 1865, deu uma palestra sobre o papel dos sindicatos na luta pela melhoria das condições de trabalho e os limites atribuídos à eficiência de suas ações. (2)

Marx explicou os fundamentos de sua teoria do valor e da mais-valia e definiu as leis que, numa sociedade capitalista, governam os salários, as relações necessárias entre os preços, os salários e os lucros. Ele mostrou quão pueris eram as objeções dos membros do Conselho Geral, opositores do movimento de greve e dos sindicatos que o dirigiam, porque, segundo eles, "o aumento dos salários leva necessariamente ao aumento dos preços, e então não servem para nada".

Mas, embora apontando para a necessidade do movimento sindical, Marx imediatamente se revolta contra os sindicalistas inclinados a exagerar o poder de suas organizações.

"Eles não devem esquecer", diz o criador do socialismo científico, "que eles estão lutando contra os efeitos e não contra as causas desses efeitos, e que eles só podem reter o movimento descendente,

mas não mudar sua direção, eles aplicam apenas paliativos, mas sem curar o mal. Eles não devem, portanto, permitir-se a ser absorvidos exclusivamente (...) Em vez do slogan conservador: "Um salário justo por um dia de trabalho justo", eles devem inscrever em sua bandeira o slogan revolucionário: ‘Abolição do trabalho assalariado’.”

Os sindicatos, úteis como centros de resistência aos exageros do capital, são impotentes à medida que fazem apenas uma guerra de partidários da ordem capitalista. Sem renunciar a essa ação cotidiana, devem trabalhar pela transformação da sociedade capitalista, fazer de sua força organizada uma alavanca pela emancipação definitiva da classe trabalhadora, isto é, para a abolição do trabalho assalariado.

O primeiro congresso internacional dos trabalhadores reuniu-se em Genebra em 1866. Marx escreveu, a pedido do Conselho Geral, uma resolução detalhada sobre os sindicatos para este congresso.

Como este documento nos dá o mais completo relato de seu pensamento sobre o assunto, citamos aqui na íntegra, de acordo com o original em inglês escrito pelo próprio Marx: (3)

6. As sociedades operárias (sindicatos), seu passado, seu presente, seu futuro.

A. O SEU PASSADO: O capital é a força social concentrada, enquanto o trabalhador só tem sua própria força de trabalho. O contrato entre capital e trabalho nunca pode ser estabelecido por razões de igualdade, inclusive no sentido que lhe é atribuída por uma sociedade que coloca a propriedade dos bens materiais de um lado e a energia vital produtiva do outro. O único poder social dos trabalhadores é o seu número. A força do número, no entanto, é anulada pela desunião. A desunião dos trabalhadores é engendrada e perpetuada pela inevitável competição entre si próprios.

Os sindicatos se originaram das tentativas espontâneas dos trabalhadores para prevenir ou pelo menos mitigar os efeitos desta competição, para conquistar termos de contrato [de trabalho, ndt] que pudessem pelo menos elevá-los acima da condição de simples escravos. O objetivo imediato dos sindicatos, no entanto, estava limitado às necessidades cotidianas, aos expedientes contra a usurpação incessante do capital, em uma palavra, às questões de salários e horas de trabalho. Tal atividade não é apenas legítima, é necessária (4). Não pode ser deixada enquanto durar o sistema atual de produção. Pelo contrário, deve ser generalizada pela formação e combinação dos sindicatos em todos os países.

Por outro lado, os sindicatos involuntariamente formaram centros de organização para a classe trabalhadora, tal como as municipalidades e comunas da Idade Média os tinham formado para a classe média [a futura burguesia, ndt]. Se os sindicatos são indispensáveis na guerra de escaramuças entre trabalho e capital, são ainda mais importantes como agências organizadas para a superação do sistema de trabalho assalariado e do domínio capitalista.

B) SEU PRESENTE: Por estarem muito preocupados com as lutas imediatas contra o capital, os sindicatos não compreenderam suficientemente seu poder de ação contra o próprio sistema de escravidão assalariada. Eles, portanto, ficam muito afastados dos movimentos políticos sociais e gerais. No entanto, nos últimos tempos eles acordaram até certo ponto para sua grande missão histórica como, por exemplo, em sua participação na Inglaterra no recente movimento político, na visão ampliada de seu papel nos Estados Unidos e na seguinte resolução adotada recentemente pela grande conferência dos delegados sindicais realizada em Sheffield:

"Esta conferência, apreciando plenamente os esforços feitos pela Associação Internacional dos Trabalhadores para unir num laço fraterno os trabalhadores de todos os países, recomenda muito seriamente a todas as sociedades aqui representadas para se juntarem a esta Associação, acreditando que é essencial para o progresso e prosperidade de toda a classe operária".

C) O FUTURO: Para além de seus propósitos originais, devem agora agir conscientemente como centros organizadores da classe operária para o grande propósito de sua completa emancipação. Eles devem ajudar qualquer movimento social e político nessa direção. Ao se considerarem e agirem como representantes de toda a classe operária, eles não podem deixar de organizar os não associados em suas fileiras. Eles precisam prestar atenção aos interesses dos setores mais empobrecidos, como trabalhadores agrícolas, onde circunstâncias excepcionais os tornam impotentes. Eles precisam convencer as grandes massas operárias que seus esforços, longe de serem estreitos e egoístas, têm o objetivo de emancipar milhões de proletários.

Esta moção indica realmente a concepção final de Marx sobre o movimento sindical. Este é, de qualquer maneira, o último documento em que a expressou.

Vemos que ele enfatiza a necessidade, a legitimidade e a fecundidade do movimento sindical.

Mas também vemos que enfatiza os limites atribuídos a esta forma do movimento operário na sociedade capitalista. Nada se diz nesta resolução sobre o papel do partido político operário, porque a agenda do Congresso de Genebra e as circunstâncias tinham, acima de tudo, ditado a moção citada. Ela ressalta que os sindicatos têm o dever de apoiar todos os movimentos sociais e políticos voltados para a emancipação total da classe trabalhadora e que eles não devem se tornar organizações "estreitas" ou "egoístas". A questão da neutralidade sindical não se coloca ali. Esta moção também não é sindicalista. Os sindicatos não são, como Marx já havia esboçado em A Miséria da Filosofia, mais que centros de organização da classe operária, a forma primitiva de sua organização da classe e de nenhuma forma os centros organizacionais, as primeiras células da sociedade socialista do futuro. O movimento sindical é apenas uma das formas, uma das etapas da organização do proletariado, cujo objetivo é torná-la a classe dominante. As escolas do comunismo, estendendo sua influência a todos os produtores, os sindicatos constituem a base mais ampla e mais sólida da ditadura do proletariado, isto é, do proletariado organizado como classe dirigente.

Notas

1 Karl Marx, A Miséria da Filosofia, p. 216-217 da edição francesa.

2 Foi traduzido para o francês por Charles Longuet sob o título: Salários, Preços e Lucros.

3 O texto aqui apresentado é o mesmo texto que foi lido em Genebra, em francês, por Eugene Smith, em nome do Conselho Geral. Nós remetemos ao livro de James Guillaume, International. T.IV, p. 332-333.

4 Esta última frase, que restauramos, foi omitida no texto francês lido no Congresso de Genebra.


 
Imagem de Administrador Usuário
por Administrador Usuário - Friday, 3 Feb 2017, 19:18
Todo o mundo

Por David Riazanov

Marx evitava as manifestações sentimentais, mesmo em suas cartas a seus parentes e amigos. Mas amar como ele amava sua esposa e filhos, amar com tal devoção é difícil. Ele sobreviveu com grande dificuldade à morte de sua esposa. A morte prematura de sua filha mais velha, Jenny Longuet, deu-lhe um golpe de que ele não se levantou mais. Mesmo em suas cartas a Jenny que, entre suas filhas, era sua camarada e colaboradora, e passou com ele pelo período mais difícil de sua existência em Londres, Marx permaneceu reservado. Suas cartas respiram toda a afeição e uma terna atenção, e vemos Marx, frequentemente, nas cartas de seus últimos anos, esforçar-se para manter sua filha feliz, esforçar-se para animá-lo, mas encontramos apenas muito raramente uma frase sentimental. É o mesmo em suas cartas a Engels, a quem, entretanto, não escondia nada. Ele lida com assuntos corriqueiros e teoria, mas é extraordinariamente tímido com efusões. Mas esse sofrimento nas linhas seguintes escritas em carta a Engels, de Alger (1 de março de 1882), enviada após a morte de sua esposa para tirá-lo da opressão do ambiente de Londres:

Você sabe que poucas pessoas aguentam tão mal como eu qualquer manifestação exagerada de sentimentos. Mas vou mentir para você se eu tentar negar que meus pensamentos estão quase inteiramente absorvidos pela memória de minha esposa. Eu não passei com ela a melhor parte da minha vida?

Essa aversão à expressão exagerada dos sentimentos e de todas as efusões torna difícil conhecer o mundo interior de Marx, suas simpatias, suas antipatias. Aprendemos muito pouco dele. E se ele às vezes permite desvios autobiográficos, como em sua Contribuição para a Crítica da Economia Política ou no folheto Herr Vogt, é somente à medida que os interesses estritamente relevantes requerem e onde esses desvios possam ser usados para definir suas visões teóricas. Poder-se-ia pensar que ele queria dizer: "Julgue-me pelas minhas obras, e não do que possa dizer de mim mesmo".

Assim, todas as tentativas de definir em Marx o homem de acordo com suas "efusões" encontram dificuldades quase insuperáveis. Seu universo interior está fechado para estranhos. O fundo de ternura e intuição que exerceu uma atração tão forte sobre o mais subjetivo dos poetas líricos, Henri Heine, bem como sobre o patético “cantor” da liberdade, Freiligrath, a capacidade infinita de compartilhar com seus amigos suas riquezas espirituais, a ausência de qualquer exigência em relação às fraquezas humanas dos outros, combinado com um espírito crítico impiedoso de si próprio, tudo isso estava escondido aos olhos do mundo sob uma couraça impenetrável.

As memórias de Lafargue e Liebknecht tentam nos dar um retrato do homem. Tanto Lafargue quanto Liebknecht tiveram mais de uma vez a oportunidade de sofrer os ataques de seu mestre fanático. Maltratava-os frequentemente, verbalmente ou por correspondência, enquanto políticos, sem poupar sua autoestima; às vezes exagerava pressionado por algum acontecimento. Mas essas variações de temperamento logo eram suavizadas. Lafargue e Liebknecht eram homens muito notáveis para não compreender que esses defeitos - que, além disso, eram também deles em grande parte - eram apenas o inverso das qualidades de Marx, e não pensavam em exigir rigor por coisas menores. E se, contrariamente aos retratos concebidos à maneira das figuras piedosas de Suzdai, como as obras dos adversários de Marx, Liebknecht e Lafargue às vezes caem no extremo oposto, seu erro é geralmente reduzido à apreciação não do homem, mas do militante e do pensador. Tal é especialmente a falha das memórias de Liebknecht. Mas eles nos são mais preciosos quando retratam em Marx, o pai, o amigo, o camarada. Quanto mais conhecemos a vida privada de Marx - as cartas de seus amigos, novas memórias, fatos até então pouco conhecidos - mais temos a confirmação da narrativa de Liebknecht.

O documento humano ao qual nos referimos abaixo, um documento preservado por sorte, lança uma luz brilhante sobre a psicologia de Marx.

Aconteceu durante o verão de 1910, quando trabalhei por várias semanas em Draveil, com os Lafargue, que tinham muito gentilmente colocado à minha disposição os papéis e as cartas deixadas por Marx. Laura Lafargue tinha-me instalado amavelmente em seu escritório, onde um dos melhores ornamentos era um retrato de Marx, mal reproduzido, e a insignificante biografia de Marx escrita com negligência pelo socialista americano Spargo. Um velho, todo branco, com olhos levemente plissados, olhando para você da parede com um sorriso. Nada de olímpico, nada imponente, nada sério.

Ele era, de certo modo, um novo Marx. Ele não era o pensador profundo, cuja fotografia bem conhecida - uma das melhores, de acordo com Laura Lafargue - nos manteve a imagem. Poder-se-ia pensar que este excelente velho não tivesse ido mais longe que "a arte de ser avô". E o retrato feito por Liebknecht com tanta arte atiçou minha memória: “o criador de O Capital sentava-se por toda a casa com seu neto favorito, Johnny, empoleirado em seus ombros ...”

Eu não me lembro bem, mas Laura lembrou-se de uma de nossas conversas sobre Marx - eu provavelmente tinha lamentado que seu pai tivesse deixado tão poucos documentos subjetivos puramente pessoais. Ela e sua irmã tinham um dia feito uma série de perguntas para seu pai, cujas respostas deveriam constituir confissões. Ela conseguiu encontrar essas confissões, tendo as respostas sido assim intituladas no original. E são precisamente essas confissões de Marx, através de perguntas e respostas, que hoje apresento à atenção do leitor. Laura Lafargue me deu uma cópia. As perguntas e respostas foram escritas em inglês. Confissão1

Sua virtude favorita Simplicidade

entre os homens Força

entre as mulheres Fraqueza

Sua principal característica Força de vontade

Sua ocupação favorita Olhar para Netchen1, ler livros

Sua ideia de felicidade Lutar

Sua ideia de desgraça Submissão

O mal que você pode perdoar Ingenuidade

O mal que te inspira aversão A servilidade

Sua antipatia Martin Tupper, pó de violeta para tinta

Seu poeta favorito Dante, Aeschylus, Shakespeare, Goethe

Seu escritor favorito Diderot, Lessing, Hegel, Balzac

Seu Herói Spartacus, Kepler

Sua Heroína Gretchen

Sua flor favorita Dafne, louro

Sua cor favorita Vermelho

Sua cor de olhos favorita Preto

Seus nomes favoritos Laura, Jenny

Seu prato favorito Peixe

Seu ditado favorito Humani nihil a me puto alienum2

Seu lema favorito Dubitandum omnibus of3

O personagem histórico que você menos gosta

Não se pode levar ao pé da letra tudo nessas confissões. Estas são confissões agradáveis. Mas elas foram feitas aos seres mais próximos, e veremos imediatamente que eles continham muita verdade.

Primeiramente, algumas palavras sobre o tempo ao qual se relacionam. Laura não poderia dar-me nenhuma indicação precisa. Mas a resposta de Marx à pergunta do nome preferido mostra que estas confissões relacionaram-se aos anos 1860-1865 em uma altura em que sua terceira filha Eleonore ainda era pequena demais para participar da enquete de suas irmãs mais velhas Jenny (a esposa de Marx também era Jenny) e Laura.5

Não nos debruçaremos sobre as respostas que, sem dúvida, não têm mais significado do que agradáveis trocadilhos e se relacionam com questões de importância secundária. É o caso em que Marx, perguntado sobre o seu prato favorito (dish, em inglês), diz peixe (fish). É verdade que Lafargue, médico e especialista em arte culinária, devia achar que Marx era um péssimo convidado e até sofria de falta de apetite. Ele vê o resultado de uma atividade cerebral muito intensa. Como essa atividade mata o apetite, Marx recorria a pratos altamente temperados, especialmente peixes enlatados e picles. Um materialista exigente poderia certamente deduzir do gosto de Marx por peixe coisas mais sérias: der Mensch ist, was er isst (o homem é o que ele come), um psicólogo poderia ver, bem como no poder colossal de abstração de Marx, um caráter de raça.

Poderíamos também dar uma explicação psicológica da inclinação de Marx pelo louro se a brincadeira não prevalecesse aqui (louro, é laurel em inglês, isto é, Laura). É também evidente que um homem tão vermelho como Marx, o médico vermelho como os ingleses chamavam-no, só podia ter uma predileção pela cor vermelha.

A resposta à terceira questão que choca qualquer defensora da igualdade dos sexos é marcada por uma ironia agradável: Marx opõe a força masculina à fraqueza feminina. Seria injusto acusar sua esposa ou filhas de fraqueza. Marx encontrou nelas, durante a luta que ele teve de suportar por toda a vida, verdadeiras companheiras. Os golpes terríveis do destino, a morte de seus quatro filhos, vítimas da profunda miséria em que a família Marx viveu nos anos que se seguiram a 1850, tudo isso, a companheira de Marx suportou com uma inflexibilidade verdadeiramente "viril". Liebknecht - e é difícil acusar de fraqueza este soldado da revolução - disse que ele não afundou em seu exílio em Londres graças ao exemplo dado a todos por sua companheira. Mas ela também teve, naturalmente, seus momentos de fraqueza.

Encontramos alusões nas cartas particulares de Marx, que sempre evitavam mencionar suas mágoas e amargura. Ele exigia nesses casos que ela não esquecesse que era mulher e mãe. A situação deles era às vezes a mais dolorosa e exigia toda a firmeza. E exigia toda a força e firmeza de Marx para não explodir em queixas como sua esposa fez em suas cartas a seus amigos mais próximos.

Ela sentia ainda mais fortemente as lutas intestinas dos emigrados. Embora Marx sempre fizesse o possível para esconder-lhe o pior, ela aprendeu mais do que ele dava. A campanha de Vogt, que conseguiu superar todos os adversários de Marx na questão da calúnia pessoal, deu-lhe uma impressão particularmente forte. A esposa de Marx não aguentou estes novos testes e ficou gravemente doente. Ela mal tinha se recuperado na época, quando as confissões de Marx pareciam se relacionar.

A simplicidade que Marx gostava acima de tudo nas pessoas era a característica dominante de seu caráter. Ele desprezava mais que tudo a pose, a afetação, as maneiras teatrais. "Marx” - escreve Liebknecht – “é um

dos poucos homens grandes, médios ou pequenos que eu conheço que não é vaidoso. Ele era muito grande, muito poderoso e muito orgulhoso para ser vão. Ele nunca foi esnobe, sendo sempre ele mesmo."

Temos também neste ponto outro testemunho que não é nem de um amigo, nem de um inimigo, mas de nosso estimado sociólogo, M. Kovalevsky:

A crer em Reclus, Marx recebendo os membros da Associação Internacional de Trabalhadores – Reclus era seu nome -, não saiu dos fundos de sua sala de estar, em pé ao lado do busto do Júpiter do Olimpo que decorava a sala, como ele gostaria de ser lembrado entre as grandes figuras da humanidade. Esta descrição está em completo desacordo com a ideia que temos de um homem que é suficientemente consciente de seu valor para não sentir a necessidade de enfatizá-lo por manifestações externas.

Marx permanecia, na memória de Kovalevsky, como "um conversador simples e despreocupado, com narrativas inesgotáveis, cheio de humor, sempre disposto a brincar".

Lembremos que nosso grande sociólogo era, então, em comparação a Marx, um homem muito jovem, a diferença de idade entre eles era de mais de 30 anos. A confissão seguinte de M. Kovaievsky é ainda mais valiosa:

"Eu não me lembro", disse ele, "durante meus dois anos de contato frequente com o autor de O Capital do menor fato, mesmo remotamente, que lembrasse essa maneira de tratar os jovens como mais velhos, que eu conheci em meus encontros ocasionais com Tchitcherin e Leon Tolstoy. Karl Marx era mais europeu, e embora talvez não gostasse de seus amigos científicos, preferindo os companheiros de luta de classes do proletariado, ele era suficientemente educado para nunca deixar transparecer suas preferências pessoais.

Esta simplicidade e essa sinceridade de Marx estavam ligadas à sua completa incapacidade de usar uma máscara de qualquer tipo, incapacidade notada não só por Liebknecht, mas também por Born, cujas memórias são de um período posterior à sua discussão com Marx. Uma prodigiosa superioridade intelectual com um espírito manso e até mesmo uma certa puerilidade, como observamos em outro economista brilhante, Ricardo, espantou todos aqueles que se aproximavam de Marx. Sua esposa sempre o chamava de "criança crescida" e ele relaxava imediatamente na companhia de crianças. Toda hipocrisia e diplomacia eram-lhe insuportáveis. Assim, ele respondia apenas a seu próprio corpo, defendendo a sociedade na qual ele devia, de boa ou má vontade, levar em conta as conveniências. Ele se queixa comicamente em suas cartas - embora com menos frequência do que Chernishevsky, cuja semelhança com Marx neste aspecto é impressionante - de sua falta de jeito nessa questão.

A companheira de Marx se distinguia pela mesma simplicidade. Kovalevsky observa que raramente encontrou uma mulher tão agradável aos seus convidados em seu modesto lar, e que, no entanto, preservava em sua simplicidade o porte de "uma grande dama", como dizem os franceses.

Duas semanas após a morte de sua esposa, Marx escreveu para sua filha mais velha.

As cartas de condolências que recebo de todos os lugares, pessoas de diferentes nacionalidades e profissões, etc., todas elogiam a pequena Mamãe e todas têm um toque de sinceridade profunda, profunda simpatia como se encontra raramente nessas cartas geralmente convencionais. Eu explico assim: Tudo nela era natural, verdadeiro e simples. Não havia nada de afetação nela. Assim, ela produzia uma impressão extraordinária de clareza.

Compreendemos agora por que Marx chama Gretchen [personagem de Goethe, ndt] sua heroína favorita. Mesmo se fosse uma brincadeira, ela continha muita verdade. A literatura alemã não tem, na verdade, expressão mais completa de naturalidade, sinceridade e simplicidade.

Força de vontade não traduz exatamente a resposta de Marx à questão do que o caracteriza mais fortemente.

A tradução acentua uma nuance de objetividade maior do que na língua original. Singleness of purpose [unidade de propósito] significa a concentração de todos os planos e todas as aspirações em um único propósito.

Não é uma simples frase nos lábios de Marx. Seria difícil encontrar uma vida na qual uma unidade de propósito tenha sido tão exemplarmente afirmada. Marx realmente conhecia apenas "o império de um pensamento, de um só, mas ardentemente apaixonado". Ele próprio define a meta para a qual convergem todos os seus projetos. É a razão. Durante muito tempo trabalhou dia e noite sem o mínimo desvio de seu objetivo de criar o fundamento sólido da emancipação do proletariado, construindo pedra sobre pedra seu grande trabalho, este arsenal inesgotável contra a sociedade burguesa. Não há o menor traço de desordem, nem de vaguear pelas encruzilhadas nesta vida forjada com um espírito inabalável de continuidade e uma lógica inflexível, nesta vida penetrada pela unidade. Unidade de fim na teoria e na prática, unidade do homem e seu trabalho em um só bloco.

A resposta a suas filhas onde ele afirma que a felicidade é para ele a luta e o infortúnio a submissão tem um quê de verdade profunda. Marx era um lutador na teoria e na prática. Sua verdade e justiça foram conquistadas na luta contra as tradições estabelecidas. E ele as encarnou na vida pela luta, pela prática. Foi para a luta contra a submissão e a escravidão em todas as suas formas - miséria social, degeneração espiritual, dependência política - que ele invariavelmente chamava os proletários de todos os países na Liga dos Comunistas e depois na Internacional. E, independentemente da estranha retórica que encontrou, sempre encontrou palavras de vigor surpreendente para envolver a luta derrotada com coroas de louros ou para prender seus vencedores temporários ao pelourinho da história.

Nada o desgostava mais que o servilismo, grosseria e complacência interessada na vida privada e na política. O culto conscientemente mantido entre os admiradores de homens tão notáveis quanto Mazzini e Lassalle era-lhe organicamente insuportável. Todo elogio, mesmo formulado com tato e circunspecção, fazia-o imediatamente escutar com desconfiança. Ainda não chegou a hora de publicar as cartas dirigidas a Marx por várias pessoas que alcançaram a celebridade - e em parte por suas controvérsias com Marx - mas é compreensível, ao ler estas cartas, que Marx tenha considerado suas complacentes lisonjas com tal olhar desdenhoso.

Ele era, acima de tudo, impiedoso para com o servilismo aos poderosos. Ele flagela este servilismo em sua severa crítica ao famoso discurso de defesa de Kindel, e condenou-o sem reservas na aproximação de Schweitzer a Bismarck. Ele elogia, pela mesma razão, o simples tato moral que impediu Rousseau de comprometer-se com os nobres da corte. Ele mostrou-se inflexível, pela mesma razão, a esta forma de servilismo, uma vil platitude que se manifesta em concessões àquilo que se chama opinião pública ou a um grau ainda menor de domesticidade, de bajulação das classes dominantes. E quanto mais talentoso o bajulador, mais impiedoso era Marx. Marx sempre mostrava um desprezo soberano por aplausos, aprovação pública e popularidade.

Martin Tupper encarnava, para Marx, o pedantismo banal que muitas vezes goza de grande sucesso, recolhe lauréis abundantes e depois cai no esquecimento. Martin Tupper, um poeta completamente esquecido hoje, foi, de 1850 a 1865, o mais popular da Inglaterra. Seu sucesso surpreendente é ainda um enigma para os historiadores da literatura inglesa.

Nenhum talento, a negação, o oposto de todo o gênio poético, uma comovente ingenuidade .... Cego na poesia, surdo para rimar, Tupper não tinha a menor inspiração, nenhuma ideia, nenhum sentido crítico.

Sua filosofia [de Tupper, ndt] está no nível da do lojista de Ostrovsky, que se perguntava se era melhor esperar por uma coisa sem obtê-la ou obtê-la para depois perdê-la. Martin Tupper respondeu a esta pergunta em versos sonoros: "A picada da dor e a fronteira do prazer são embotados por longa espera, pois

tanto a ferida quanto o bálsamo se dissolvem nas águas da paciência"4. Marx disse, em O Capital, que Martin Tupper que, na sua opinião, está para os poetas assim como Bentham está para os filósofos, só poderia ter sido concebido na Inglaterra. Marx está obviamente errado sobre este ponto. Esses poetas foram produzidos também pela Alemanha e pela Rússia. Mas um Tupper só poderia desfrutar de um sucesso tão grande na Inglaterra, onde o servilismo diante da opinião pública ainda é muito grande.

Vemos nas obras de Marx que seus poetas favoritos eram Esquilo, Shakespeare e Goethe. Lafargue também testemunha isso.

Marx ele disse, considerava Ésquilo e Shakespeare os dois maiores gênios dramáticos de todos os tempos. Ele havia dedicado extensos estudos a Shakespeare, para quem tinha admiração ilimitada. Conhecia todos seus personagens sem exceção. Toda a família Marx professava uma espécie de culto ao grande dramaturgo inglês, e suas três filhas o conheciam de cor.

Marx admirava em Ésquilo o grande poeta que primeiro transformou o velho mito de Prometeu no maior símbolo de um inflexível campeão da humanidade, desafiando o mestre do céu e da terra. Em sua tese de doutorado, Marx citou as seguintes palavras de quem ele chamou de "o mais nobre dos santos e dos mártires do calendário filosófico". Palavras de Prometeu ao mensageiro de Zeus: "Pois saibas sem sombra de dúvidas que eu não trocaria minha miséria por sua servidão. Acho preferível estar acorrentado a este penhasco a ser o mensageiro fiel de Zeus teu pai!"

Esta concepção de Prometeu inspira os primeiros poemas de Marx, então editor da Gazeta do Reno, e Marx já aparece em um desenho datado de 1840-1850 sob a forma de Prometeu acorrentado.

A nomeação de Marx de seu escritor favorito surpreende-nos um pouco. Diderot não é mencionado nas lembranças de Lafargue. Mas, Marx compartilha a admiração pelo grande enciclopedista francês com os maiores poetas alemães de seu tempo, Lessing, Schiller e Goethe. Os historiadores contemporâneos da literatura francesa confirmam cada vez mais este ponto de vista. Mais do que qualquer outro enciclopedista do século XVIII, Diderot superou com êxito a prova do tempo, não apenas como pensador, mas como escritor. Seu Neveu de Rameau, no qual Marx certamente pensou é ainda hoje um estilo de prosa francesa. Diderot foi mais estrangeiro do que qualquer outro enciclopedista no culto à frase. A linguagem clara, surpreendentemente viva, formada em contato pessoal com o povo, sua dialética cheia de verve, sua habilidade engenhosa em expressar com vigor e clareza os traços mais característicos dos variados aspectos da vida, a mordaz mordedura com a qual faz um parasita francês flagelar a sociedade francesa, tudo isso nos explica bastante a preferência que Marx e Engels concederam a Diderot.

Marx afirma que Spartacus e Kepler são seus heróis favoritos, o primeiro evidentemente entre aqueles de ação, e o segundo entre aqueles de pensamento. Pode ser que estes nomes lhe vieram à mente devido a uma leitura recente. Encontramos, em todo caso, em uma carta dirigida a Engels, a seguinte indicação concernente a Spartacus:

“Para relaxar às tardes, eu estive lendo a história das guerras civis romanas, de Appian, no original em grego. Um livro de grande valor. O autor é origem egípcia. Schlosser ele diz que ele “não tem alma”, provavelmente porque ele vai à raiz das condições materiais para explicar as guerras civis. Spartacus é mostrado como o tipo mais belo em toda a história antiga. Grande general (não um Garibaldi), caráter nobre, um verdadeiro representante do antigo proletariado.” (27-2-1861)

Spartacus é representado assim no livro de Giovanolli, que era muito popular. Podemos, é claro, considerá-lo diferentemente. Lembremo-nos de que Marx particularmente apreciava seu "belo tipo".

De onde a simpatia de Marx por Kepler viria? Não viria de sua honestidade científica que ele tanto valorizava em Ricardo? Ou daquela "clareza da mente", que de acordo com biógrafos de Kepler, permitia-lhe abstrair

tão facilmente de preocupações e problemas mundanos, e "a subir aos picos etéreos de especulação científica, perseguindo fins elevados e nobres"?

Kepler também passou a maior parte de sua vida na luta contra a privação. Ele não admitia nenhuma negociação de princípios. Ao contrário de Tycho Brahe, ele recusou fazer qualquer concessão aos poderosos da época. Nenhuma pressão, nenhuma sedução, poderia desviá-lo do caminho que havia traçado. Ele trabalhou intensamente durante anos para descobrir as leis que regem os movimentos do mundo celestial e morreu pobre, sem completar o seu trabalho.

“Ninguém foi maior que Kepler

Kepler morreu pobre

Ele deu alegria às mentes

Ele deixou os corpos sem pão.”

Marx muitas vezes lembrava da velha rima, especialmente quando a Guerra da Secessão [guerra civil dos EUA, ndt] priva-o da subsistência, devido à interrupção de sua cooperação com o New York Tribune e uma doença dolorosa ameaça-o mais de uma vez de pôr um fim aos seus dias. O pensamento de que não conseguiria concluir o trabalho no qual ele expôs as leis do desenvolvimento capitalista, que ele descobriu, torturava-o frequentemente.

O mote dado por Marx como "Duvidar de tudo" só contradiz na aparência sua sede inextinguível por conhecimento e sua aspiração perpétua à verdade. Não se trata da dúvida pela dúvida como o ceticismo comum entende a questão. A dúvida de Marx é dirigida contra as aparências que escondem a realidade de nós. Os pontos de partida de todo seu estudo crítico é a dúvida das aparências, quer se trate da natureza, política ou economia. A principal tarefa da ciência é desmascarar esta aparência. Como uma lâmina afiada, a análise por Marx corta o envelope dos fatos para revelar sua verdadeira natureza, a fim de extrair seu conteúdo autêntico. Liberdade, igualdade e justiça não são mais que aparências na sociedade capitalista, que só enganam os fetichistas desta sociedade. Armado com sua dúvida, armado com sua crítica, Marx descobriu o primeiro grande segredo da sociedade burguesa, o fetichismo da mercadoria, que transforma o homem, de criador de todas as riquezas terrestres, em escravo de seus próprios produtos, tanto na economia quanto na política e na ideologia.

Marx brinca com sua própria paixão - que lhe valia muitas vezes a zombaria de seus amigos - dizendo que seu prazer favorito é ler. O próprio Engels, um grande leitor também, lutava contra este defeito de Marx. Com cada nova língua aprendida, Marx via uma nova literatura aberta, que ele estudava tão profundamente quanto as outras. Ele já tinha mais de cinquenta anos quando começou a aprender Russo. Nós guardamos os cadernos contendo os exercícios que ele utilizava a fim de penetrar no mistério das declinações e, principalmente, das conjugações do russo. Vemos o quão bem ele estudou literatura russa, econômica e estatística.

Certamente, essa vontade de ler era apenas o reverso da honestidade com a qual ele sempre se esforçava para dominar completamente a literatura de seu assunto. Não podemos ler sem dar um sorriso a carta que ele escreve a Engels onde diz que não pode publicar o primeiro volume de O Capital, já quase pronto, sem antes ler o novo livro de Rogers. E conhecemos sua maneira de ler pelos inúmeros extratos que ele extraiu de quase todos os livros lidos. Ele mesmo resumia os livros mais significativos quando os teve em sua biblioteca. E se Marx não conseguia finalizar O Capital para entregá-lo para impressão - é visto por suas cartas que ele só admitiu imprimir o primeiro livro quando os demais volumes estavam prestes a terminar – é explicado não só pela doença, mas também pelo fato dele não poder resistir, como ele próprio diz, à tentação teórica de usar novos materiais que lançam luz sobre o desenvolvimento das relações capitalistas.

Uma doce ironia em relação a si próprio atravessa a resposta que ele dá à pergunta sobre o defeito que é mais propenso a perdoar: ingenuidade. Marx estava longe de ser estranho às coisas deste mundo. Ele tomou muita parte na atividade prática. Mas, um trabalho científico intenso, um trabalho de escritório inevitavelmente engendra o que é chamado de distração. Marx era muito distraído. Naturalmente confiante

e sem tempo para frequentar pessoas e adquirir conhecimento de homens, ele foi mais de uma vez vítima de charlatães comuns e até de charlatães políticos. Ele logo percebeu seu erro e riu com outros sobre sua falta de jeito em vários assuntos. Era muito mais fácil para ele desmascarar algum aventureiro político ou algum infiltrado tentando capturar sua confiança, mas se pode contar também um certo número de casos nos quais ele foi vítima de sua ingenuidade, como no caso de Tolstoi, no do aventureiro húngaro Banya, etc. Marx poderia ter se justificado ao assinalar que esses charlatães conseguiram enganar outros que eram muito mais informados que ele. Mas ele nunca foi capaz de se livrar desse defeito, especialmente no que diz respeito aos homens de ação.

"Nada que é humano me é estranho", ele respondeu modestamente a suas filhas, que naturalmente conheciam melhor do que ninguém suas fraquezas. Ele poderia ter dado esta resposta a todos aqueles adversários que, com um zelo digno de uma causa melhor, tentaram descobrir em sua vida ou em suas cartas algum defeito. Um homem que se eleva tão acima de seu ambiente, permanece ligado a ele por um grande número de laços. É difícil, é quase impossível examinar inteiramente o velho homem. Marx não foi mais longe do que outros. Ele também enganou a si próprio, e ele pecou em sua vida, bem como na política.

Qualquer um que tenha lido suas cartas a Engels, Becker, Weydemeyer surpreende-se que Marx pudesse, nas duras condições em que viveu durante anos – só saiu do desconforto a partir de 1869 - manter sua alegria de viver e essa clareza espiritual que espantava seus amigos e conhecidos. Os terríveis golpes do destino muitas vezes lhe arrancaram uma palavra brutal e cruel, às vezes tornando-o até mesmo injusto para com seus parentes. Mas sempre, sacudindo com um gesto vigoroso o aperto das dificuldades diárias, ele retoma orgulhosamente seu curso, "tenaz, movido e pressionado", e retorna ao trabalho toda a sua vida.

Quando Engels, seu amigo, implora - e não pela primeira vez - em uma carta, para ele finalmente entregar O Capital para a gráfica, Marx responde (31 de julho de 1865):

“Eu não posso decidir enviar qualquer coisa até que eu tenha todo o trabalho completamente terminado. Quaisquer que sejam as falhas, o mérito de meus trabalhos é constituírem um todo artístico, e eu só posso conseguir isso pela minha prática de nunca publicar nada até que estejam inteiramente terminados bem na minha frente.”

O mesmo pode ser dito da vida de Marx. Quaisquer que sejam os seus defeitos, constitui uma obra de arte acabada, de uma rara beleza que seria difícil igualar na história da humanidade.

 
Todo o mundo

Publicado por David Riazanov em 1919

Mais de dez anos se passariam desde a derrota da revolução de 1848, que levou à repressão de todos os movimentos das classes trabalhadoras do continente e da Inglaterra, até um novo levantamento da classe operária levasse ao surgimento da Associação Internacional dos Trabalhadores.

Durante esses dez anos de reação política e desenvolvimento econômico de uma riqueza sem igual, sobre a qual nem mesmo a Guerra da Crimeia teve quase nenhuma influência e que abraçou todos os países europeus, incluindo a Rússia, uma nova geração teve tempo para amadurecer. A crise mundial de 1857-58 tirou-a de sua indiferença. O movimento político que reiniciou em 1859 trouxe à tona uma série de questões políticas e nacionais levantadas, mas não resolvidas pela revolução de 1848, e deu uma nova intensidade ao movimento democrático de todos os países.

As questões relativas à abolição da escravidão na América do Sul e do direito feudal na Rússia tinham sido incluídas na agenda já em 1859.

O Movimento dos Trabalhadores na Inglaterra em 1850-60

Na Inglaterra, quando, após a infrutífera tentativa feita por Ernest Jones para dar-lhe um caráter político, o Cartismo foi privado de seu último jornal em 1858 e deixou de existir como uma organização política unida, o movimento operário sofreu uma decomposição completa.

A antiga tendência, da qual o Cartismo sempre sofreu, voltou a ganhar força no movimento operário, que se dividiu em movimentos parciais que perseguiam objetivos diferentes e criou diferentes organizações que competiam entre si em busca do mesmo fim. Não havia vestígio de um movimento sindical unido se desenvolvendo sob uma direção geral.

A situação política do momento favoreceu o desenvolvimento de formas do movimento operário que não estavam em contradição direta com a reação no poder e que gozavam da simpatia dos filantropos burgueses.

As uniões corporativas, liderados pelos honestos pioneiros de Rochdale, ganharam uma posição dominante entre as outras formas de atividade da classe trabalhadora.

O movimento de profissões foi desfavoravelmente afetado nesse período. Os sindicatos por profissões, com poucas exceções, existiam com grande dificuldade. Havia uma tendência geral para considerar todas as atividades políticas como prejudiciais ao movimento.

Mas a situação mudou abruptamente após a crise de 1857. "A era das greves”, descrevem o Webbs, “que começou em 1857 e foi marcado pelo declínio industrial mostrou quão ilusórias eram essas esperanças".

A greve mais importante deste período foi a dos pedreiros de Londres.

Todos os sindicatos ingleses se juntaram aos pedreiros de Londres. Durante seis meses (de 21 de julho de 1859 a 6 de fevereiro de 1860), esta greve manteve viva a classe trabalhadora inglesa. Representantes dos

trabalhadores e dos membros do comitê, formados por delegados de diferentes profissões - especialmente G. Odger, que posteriormente se tornou presidente do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, e W.R. Cremer, que se tornou seu secretário – determinavam as reivindicações dos trabalhadores. "Se a economia política está contra nós", exclamou Cremer na reunião de Hyde Park, “nós estaremos contra ela!". Toda a luta foi considerada como uma luta da economia política da classe operária contra a economia política da classe capitalista.

A primeira greve dos pedreiros terminou em um acordo. Os trabalhadores renunciaram temporariamente às suas exigências. Mas, apesar disso, a greve dos pedreiros tornou-se o ponto de viragem do movimento operário inglês na história. A luta e a questão do direito de coalizão chegaram até mesmo aos sindicatos por profissão, apesar de suas tendências pacíficas. Os comitês profissionais (trade-committees), formados no momento desta greve para a organização de conferências, deram origem em muitos lugares a muitos conselhos por profissões (trade-councils), entre outros ao de Londres (em julho de 1860), e esses conselhos naquela época tomaram para si a defesa dos interesses dos trabalhadores em sua luta contra os capitalistas.

Quando, na primavera de 1861, estourou uma nova greve de pedreiros, todos os sindicatos por profissões em Londres tomaram o lado dos grevistas. O conselho por profissões de Londres, formado pouco antes, fez todos os esforços para apoiar as exigências dos pedreiros. Foi precisamente este conselho que organizou todo o movimento contra a substituição dos grevistas por soldados. Na delegação enviada ao governo por decisão da reunião de delegados de todos os sindicatos por profissões de Londres, estavam: E. Coulson (1), V. Cremer, G. Howell, G. Martin, J. Nieass, G. Odger, todos seriam futuros membros do Conselho Geral da Internacional.

A segunda greve não só garantiu aos trabalhadores, como primeiro, o direito de organização, mas também graças a ela os trabalhadores obtiveram uma redução da jornada de trabalho, uma jornada de 9,5 horas. Além dos laços mais estreitos entre os diferentes sindicatos locais [a partir desse ponto, denominaremos apenas de sindicatos aos sindicatos por profissões, ndt] e o despertar da solidariedade entre a classe operária inglesa, o movimento de greve de 1859-1861 teve ainda outra importante consequência. Os empresários, que em sua luta contra os sindicalistas sempre alegavam a ameaça da concorrência estrangeira, agora ameaçavam recorrer à mão-de-obra estrangeira mais barata. A concorrência cada vez maior dos trabalhadores alemães nas profissões de alfaiates e padeiros revelou que esta ameaça não era uma palavra vã. Por isso, era urgente levar a luta pela igualdade das condições de trabalho ao continente. Como consequência desta necessidade, a propaganda internacional dos sindicatos tornou-se uma questão de capital importância para os trabalhadores ingleses, e a tendência ao estabelecimento de relações com os trabalhadores do continente - os franceses, os alemães e os belgas em particular – fortifica-se notavelmente no meio operário.

Os emigrantes de diferentes países estabelecidos em Londres eram, para isso, os intérpretes mais apropriados.

O centro da emigração proletária, depois da partida da maior parte dos trabalhadores franceses para a América ou de seu retorno à França, depois das anistias de 1856 e 1859, era então "o círculo de operários comunistas”, que eram na sua maioria trabalhadores industriais (tecelões, pintores, relojoeiros).

Alguns deles, como Eccarius e Lessner, eram membros da antiga Liga dos Comunistas e também trabalharam em organizações profissionais inglesas. Logo surgiu a oportunidade de estabelecer relações diretas com os trabalhadores do continente com a ajuda dos emigrantes. Em maio de 1862, a terceira exposição [industrial, ndt] internacional foi inaugurada em Londres, da qual também participaram delegações de trabalhadores de diferentes países. A maior era a delegação francesa.

Trabalhadores franceses na Inglaterra

Em nenhum outro lugar a derrota da revolução de 1848 afetou mais fortemente o destino do proletariado do que na França. O governo surgido do golpe de Luis Bonaparte reprimiu impiedosamente qualquer tentativa de um movimento autônomo por parte da classe operária. Mas o Império não estava satisfeito com medidas e proibições policiais; tentou, ao mesmo tempo, reconciliar os operários com o novo regime, melhorando sua posição material e cultivando uma espécie de "socialismo imperial".

No entanto, a crise de 1857-1858 provocou na França um movimento operário tão importante quanto na Inglaterra. Logo destruiu todas as ilusões do "socialismo imperial".

Já no início da crise um movimento de greve foi declarado na França, apesar da resistência de associações cujo objetivo era apenas a defesa dos salários. Grande excitação prevaleceu entre as classes trabalhadoras.

A guerra com a Itália, empreendida contra a vontade do clero, para acabar com o descontentamento que reinava em todo o país, inicialmente causou entre os operários um grande entusiasmo que se transformou numa onda de indignação quando conheceram as condições da paz de Villafranca. Por outro lado, ficou evidente que todas os caminhos de uma retirada foram cortados. Por outro lado, tornou-se igualmente evidente que o desenvolvimento da questão italiana só aumentaria o descontentamento do clero. Somente os operários, a burguesia liberal e os círculos pequeno-burgueses poderiam, até certo ponto, contrabalançar essa situação. Isso explica os primeiros passos do governo de um "império liberal" e a nova aproximação com a Inglaterra, que foi expressa pela assinatura do Tratado Industrial de 1860.

O príncipe Napoleão era o representante mais sério das tendências liberais e anticlericais de toda a família imperial. Seu homem de confiança foi Armand Levy, que participou ativamente da revolução de 1848 e foi o preceptor dos filhos do grande poeta polonês Mickiewicz. Em seu jornal, para o qual representantes de diferentes organizações colaboravam, Lévy defendia os interesses de todas as nacionalidades oprimidas, e desde o início deu um lugar muito importante à questão do trabalho. Conseguiu formar entre os trabalhadores parisienses um grupo de correspondentes habituais do jornal.

Em colaboração com esses trabalhadores, Lévy também publicou uma série de panfletos nos quais apresentava as demandas dos operários no espírito do socialismo imperial.

Este grupo concebeu a ideia de enviar uma delegação especial de trabalhadores para a Exposição Internacional de Londres. Foi sempre Lévy o principal intermediário entre os operários e o príncipe Napoleão, presidente da comissão imperial da Exposição. E foi precisamente esta circunstância - o carácter quase oficial da delegação dos trabalhadores franceses - que foi posteriormente explorada em várias ocasiões contra os membros franceses da Internacional.

Na realidade, o assunto se apresentava de maneira bastante diferente. Entre os trabalhadores de Paris existia outro grupo, composto em sua maioria por seguidores de Proudhon, que consentiram participar da delegação sob certas condições. Este grupo, liderado por Tolain, conseguiu que os delegados dos operários fossem eleitos pelos próprios trabalhadores.

A reunião de 5 de agosto de 1862, durante a qual foi recebida solenemente a delegação dos trabalhadores franceses, não poderia de modo algum ser considerada como o ponto de partida da fundação da "Associação Internacional dos Trabalhadores", porque os sindicatos ingleses não tomaram parte alguma na organização desta reunião.

Os verdadeiros organizadores desta reunião enfatizaram desde o início que a recepção especial dada aos franceses fora preparada não só pelos trabalhadores, mas também pelos empresários ingleses. A reunião em si ocorreu sob a égide dos exploradores que haviam liderado uma luta feroz contra os trabalhadores ingleses alguns meses antes. Foi por esta razão que não foi feita qualquer proposta definitiva para o estabelecimento de relações permanentes entre trabalhadores franceses e ingleses. Nos discursos proferidos em inglês e em

francês, os oradores apoiaram principalmente, não os interesses da classe trabalhadora, mas os da indústria, pregando a necessidade de uma entente cordial entre trabalhadores e empresários como o único meio de melhorar o destino dos trabalhadores.

Nessa reunião não se falou uma palavra sobre a urgência de uma união internacional das classes trabalhadoras de diferentes países para uma luta por sua libertação. No entanto, a permanência das delegações operárias em Londres teve consequências muito importantes, pois marcou a primeira etapa na realização de um acordo entre os trabalhadores franceses e ingleses. O contato com seus companheiros ingleses e o conhecimento direto das condições de vida inglesas deram frutos.

Uma das consequências mais importantes desta visita à Exposição para os franceses foi a separação que resultou entre os trabalhadores que continuaram a seguir a corrente do "socialismo imperial” e aqueles que, com Tolain e seus amigos à cabeça, queriam se libertar de qualquer tutela oficial.

Não há dúvida de que os delegados franceses entraram em relações com os líderes do movimento sindical inglês através de certos representantes da emigração francesa. As relações foram então mantidas com a ajuda de membros da delegação francesa que encontraram trabalho em Londres e permaneceram lá, como E. Dupont, que se tornou posteriormente secretário da Internacional pela França.

As relações estabelecidas entre os operários franceses e ingleses durante a Exposição poderiam terminar rapidamente se não fossem duas circunstâncias - a crise do algodão e a insurreição polonesa - que provocaram movimentos paralelos de trabalhadores de ambos os lados do Canal [da Mancha, que separa a França da Inglaterra, ndt].

A escassez de algodão, resultado da guerra civil na América do Norte, foi seriamente sentida em 1862-63. A posição dos trabalhadores de Lancashire era terrível O destino dos trabalhadores têxteis franceses não era diferente.

Comitês operários foram formados quase simultaneamente em Londres, com Odger e Cremer, e em Paris sob a direção de Toulain, Perrachon e outros líderes operários. O objetivo desses comitês era organizar os trabalhadores desempregados.

O movimento voltado para o apoio moral dos poloneses insurgentes também se manifestou em ambos os lados do Canal. Os trabalhadores ingleses que, apesar das pesadas consequências da guerra civil norte-americana, levaram em suas reuniões uma agressiva campanha contra o governo que se preparava para apoiar os escravistas americanos, manifestaram em uma série de reuniões sua simpatia pela Insurreição Polonesa, que se desencadeou no início de 1863 e fizeram tudo o que podiam para influenciar o governo inglês de uma forma favorável aos insurgentes poloneses. A delegação eleita na reunião de St. James Hall, que teve lugar em 28 de abril de 1863 sob a presidência do Professor Beesly, foi recebida por Palmerston, mas obteve apenas uma resposta evasiva. Para exercer uma pressão ainda mais forte sobre o governo, foi decidido organizar uma nova reunião em que participariam os representantes dos trabalhadores franceses.

Toulain e seus amigos aceitaram o convite dos trabalhadores ingleses e a reunião aconteceria no dia 12 de julho de 1863 em St. James Hall. Discursos em nome dos trabalhadores ingleses foram pronunciados por Cremer, que submeteu a uma crítica severa toda a política externa de Palmerston e por Odger, que pregou a guerra contra a Rússia. Tolain pronunciou-se no mesmo espírito, descrevendo eloquentemente os sofrimentos dos poloneses e insistindo na necessidade de uma luta enérgica contra a barbárie russa.

Imediatamente após esta reunião, os representantes dos trabalhadores ingleses e franceses empenharam-se no estabelecimento de relações próximas entre eles.

Foi então que o Conselho Profissional (Trades-council) de Londres, encarregado pelos trabalhadores ingleses, tomou a iniciativa nesta matéria. Em 23 de julho, organizou uma grande recepção para os trabalhadores franceses. Odger, secretário do conselho, arengava os trabalhadores franceses e expressava a esperança de que chegasse o dia em que os operários de todos os países se uniriam para pôr fim às guerras e à escravidão e onde se estabeleceria o reinado da liberdade e do bem comum.

A delegação polonesa participou da reunião. O trabalhador alemão Weber explicou em seu discurso as consequências benéficas da colaboração entre os trabalhadores de todos os países.

Preparativos da Associação Internacional dos Trabalhadores

Foi decidido por unanimidade organizar uma comissão para a elaboração de um discurso aos trabalhadores franceses. Mas mais de três meses se passaram desde que o comitê cumpriu seu papel e submeteu à nova reunião o rascunho deste discurso (10 de novembro de 1863).

O discurso foi proposto por Odger, Cremer e Applegarth e foi aceito por unanimidade. Na segunda quinzena de novembro foi traduzido para o francês pelo professor Beesly, enviado aos trabalhadores franceses, e lido com grande interesse em todos os bairros operários de Paris.

Este discurso fraterno afirmava que a melhor maneira de manter a solidariedade dos povos era a união dos trabalhadores de todos os países. Para alcançar esse objetivo, propôs-se a organização de um congresso internacional.

“Organizemos um encontro geral de representantes da França, da Inglaterra, da Alemanha, da Itália, da Polônia e de todos os países dispostos a trabalhar para o bem da humanidade, organizemos um congresso para o estudo de todas as grandes questões das quais depende a paz entre os povos.

A fraternidade dos povos é indispensável para o sucesso do trabalho dos trabalhadores, pois sempre que tentamos melhorar nossa posição social, reduzindo horas de trabalho ou aumentando os salários, os empresários ameaçam chamar os trabalhadores franceses, alemães, belgas, etc., desejando fazer o mesmo trabalho a um salário menor. Devemos admitir que lamentamos que esse fato já tenha acontecido mais de uma vez, não porque nossos irmãos tenham desejado nos prejudicar, mas simplesmente por causa da falta de relações regulares e sistemáticas entre os escravos dos diferentes países. Esperamos poder estabelecer tais relações agora, porque o nosso princípio de igualar, tanto quanto possível, todos os salários, não permitirá mais que os empresários nos excitem uns contra os outros e disponham de nosso destino para o prazer dos traficantes [de trabalhadores, ndt].”

Ocorreram mais de oito meses antes da resposta dos trabalhadores franceses ser recebida em Londres. O atraso é explicado pelo fato de que os trabalhadores parisienses estavam se preparando precisamente neste momento para as eleições fixadas para o mês de março de 1864.

Na época da campanha eleitoral, foi feita pela primeira vez uma tentativa de separar politicamente os trabalhadores da oposição burguesa. O manifesto francês - o manifesto dos 60 - escrito por Tolain e assinado por sessenta operários (entre os quais estava Camélinat, tesoureiro do Partido Socialista Francês), defendia a urgência de que a classe trabalhadora estabelecesse uma plataforma política independente. Os princípios fundamentais do manifesto tinham sido emprestados de Proudhon com a diferença de que os "sessenta" se declaravam dispostos a participar das eleições, que Proudhon desaprovava.

As negociações com os trabalhadores ingleses só foram retomadas depois destas eleições.

O papel de intermediário foi assumido por Henri Lefort, que também participou da campanha eleitoral, e por seus amigos pertencentes à colônia dos emigrantes franceses de Londres.

Decidiu-se transmitir o discurso dos operários franceses aos ingleses através de uma delegação especialmente eleita para esta missão.

O jornal operário Beehive anunciou, em 17 de setembro, que em 28 de setembro teria lugar uma reunião no St Martin's Hall, nas ruas de Long Acre, durante a qual uma delegação de trabalhadores franceses leria seu discurso para trabalhadores britânicos e proporia um plano para o estabelecimento de relações entre os dois povos.

A Assembleia Constituinte

A reunião à qual, como Marx colocou em sua carta a Engels, "tinha tanta gente que estavam sufocando", foi presidida pelo professor Beesly, que tinha tomado a liderança da reunião do ano anterior sobre a questão polonesa. Depois do discurso do Presidente, que insistiu na necessidade de uma estreita união entre a França e a Inglaterra, expressou a esperança de que esta reunião marcaria o início da colaboração dos operários ingleses com os de todos os outros países e reforçasse seus sentimentos fraternais. Odger leu o discurso acima mencionado dos trabalhadores ingleses. Tolain respondeu em nome da delegação francesa:

“Trabalhadores de todos os países, disse ele, se quisermos ser livres, temos de organizar um congresso. As pessoas que têm consciência de sua força estão se levantando para lutar contra a tirania no campo da política e contra os monopólios na economia social, enquanto a indústria, que deve seu progresso às descobertas científicas, desenvolve cada vez mais suas forças produtivas. O uso de máquinas, facilitando a divisão do trabalho, contribui para o crescimento destas forças, e os tratados comerciais, realizando o princípio do livre comércio, abrem novos campos à sua atividade.

O progresso industrial, a divisão do trabalho, a liberdade de comércio - estas são as três questões que devem chamar a vossa atenção porque pretendem transformar na sua essência as condições da vida econômica da sociedade. Sob a pressão dos acontecimentos e das novas exigências do momento, os capitalistas uniram-se para formar poderosas organizações financeiras e industriais, e se não opormos qualquer contrapeso em nossa defesa, se a pressão que exercem sobre nós não encontrar resistência, logo seremos obrigados a submeter-nos ao seu regime despótico. Nós, trabalhadores de todos os países, devemos unir-nos para pôr fim ao desenvolvimento desse sistema maligno que, se não, conduzirá à divisão de toda a humanidade em duas classes diferentes - uma grande maioria de famintos e oprimidos e uma pequena coalizão de maestros arrogantes e gordos mandarins.

Então, vamos unir-nos ajudando uns aos outros para alcançar nosso objetivo. É exatamente isso que nossos irmãos franceses propõem aos irmãos ingleses.

Os Lubez, que traduziram o discurso de Tolain para o inglês, expuseram ao encontro as linhas gerais do plano de ação elaborado pelos trabalhadores franceses. Deveria ser formado um comitê central, composto pelos representantes dos trabalhadores de todos os países, com sede em Londres. Em todas as outras capitais da Europa, seriam organizadas subcomissões que estariam em contato com o Comitê Central por correspondência. O Comitê Central deveria designar as questões que seriam então objeto das deliberações de todos os subcomitês. O resultado final destas deliberações deveria então ser submetido ao comitê central. No decorrer do ano, um congresso seria convocado na Bélgica, com a presença de representantes da classe operária de todos os países, e que determinaria a forma final de toda a organização.

Depois de ler o discurso escrito por Lefort, Wheeler propôs a seguinte resolução: 

A assembleia aqui presente, depois de ouvir a resposta de nossos irmãos franceses ao nosso discurso, os saúda mais uma vez, e como a realização de seu projeto deve contribuir para a união dos trabalhadores, aceita o projeto que propõe servir de base à organização de um União Internacional. A assembleia decide eleger uma comissão que poderá ser ampliada por cooptação e que será

responsável pela elaboração dos projetos de estatutos e regulamentos da União, cuja fundação pretendemos fazer.

Esta resolução, apoiada em nome dos alemães por Eccarius, em nome dos italianos pelo Major Wolff, em nome dos franceses por Bosquet e em nome dos irlandeses por Forbes, foi aprovada por unanimidade.

Isso é tudo o que sabemos sobre esta histórica assembleia. Os membros do comitê central provisório foram encarregados da elaboração dos regulamentos, mas não receberam instruções diretas.

O título da futura sociedade permaneceu indeciso. O Comitê deve, por sua própria iniciativa, dar conteúdo à nova forma da União Internacional.

A elaboração de todas as questões e fórmulas de princípios foi assim submetida aos debates da Comissão.

Marx e a Internacional

O papel principal na elaboração do programa e na composição do projeto de estatutos desta organização internacional criada pelos trabalhadores ingleses e franceses pertence ao comunista alemão Karl Marx.

No registro oficial, seu nome é mencionado pela primeira vez na lista de membros da comissão eleita e, mais importante, no último lugar.

Isso por si só indica que este nome era conhecido pelos organizadores desta assembleia.

O próprio Karl Marx diz o seguinte:

“Um certo Lubez foi-me enviado para perguntar se eu estava disposto a participar da reunião em nome dos trabalhadores alemães, e se eu poderia indicar-lhe um trabalhador alemão como orador, etc. Eu lhe indiquei Eccarius, que cumpriu perfeitamente esse papel, e eu também estava presente como uma figura muda no palco. Eu sabia que desta vez, do lado dos trabalhadores de Londres e de Paris, ‘forças reais’ estavam envolvidas e, portanto, decidi quebrar minha própria regra ‘de recusar convites deste tipo’.” (2)

O convite ao encontro dirigido a Karl Marx pelo carpinteiro V. R. Cremer foi formulado da seguinte forma:

Senhor,

A comissão que organiza a reunião pede-lhe para honrar a reunião com a sua presença. Esta carta servirá como um passe para entrar na sala onde o comitê se reunirá (às 7:30 da manhã). Muito respeitosamente

V.-R. Cremer.

Portanto, é difícil considerar Karl Marx como o fundador direto da Associação Internacional dos Trabalhadores.

Mas é indubitável que, desde a primeira reunião do Conselho Geral Provisório, ele foi o chefe espiritual da Associação. Apoiado por Eccarius, ele lutou contra todas as tentativas de transformar a nova sociedade em uma mera variante da antiga "Associação Internacional", ou fundir-se com uma das associações já existentes, como a "Liga Universal", em cuja sede o conselho provisório organizou suas primeiras sessões. Na segunda sessão (de 12 de outubro de 1864), a resolução de Eccarius e Whitlock foi adotada. Ela deu à nova associação o nome de "Associação Internacional de Trabalhadores".

Na subcomissão encarregada da elaboração dos estatutos, Marx conseguiu garantir a vitória das ideias fundamentais do socialismo científico. Embora tenha sido obrigado a fazer algumas concessões aos revolucionários franceses e italianos, "o discurso inaugural" e a declaração de princípios que ele propôs foram aprovados em sua totalidade por todos os trabalhadores do Conselho Geral como dando a melhor interpretação das demandas da classe trabalhadora. Na quarta sessão do Conselho Geral Provisório, em 1º de novembro de 1864, Marx fez a leitura de seu trabalho que, após algumas mudanças de estilo, foi aceito por unanimidade.

A partir daquele dia, a Primeira Internacional teve um programa e a jovem organização estava em posição de começar seu trabalho de propaganda.

O “discurso inaugural" da Associação Internacional dos Trabalhadores terminava com o lema: "Proletários de todos os países, uni-vos", que foi posto no final do ainda famoso discurso do primeiro sindicato internacional. Incluiu também o subtítulo do manifesto da "Liga Comunista", que apontou pela primeira vez a união de trabalhadores de todos os países como uma das condições mais importantes para a libertação do proletariado.

Este lema, que reunia, naquele momento, uma minoria insignificante, um pequeno grupo internacional, mais pelo seu programa que pela realidade, tornou-se o de uma organização de trabalhadores verdadeiramente internacional, não só pelo seu programa, mas também pela sua composição. Milhares de trabalhadores uniram-se nas seções e grupos da Primeira Internacional para lutar por sua libertação. E a união dos proletários de todos os países que a fundaram agora celebra seu renascimento na nova Internacional que une milhões de proletários.

Notas

1 A tradução [original, ndt] distorceu vários nomes. Rastreamos a maioria deles: Cremer ("Kremer" no Communist Bulletin), Odger ("Oger"), Wheeler ("Viler"), etc. É, portanto, provável que "S. Coolson" seja na verdade Edward Coulson.

2 Carta a Engels de 10 de dezembro de 1864.


 
Todo o mundo

publicado por David Riazanov em 1925


Quatrocentos anos se passaram desde a grande Guerra Camponesa na Alemanha. Ela difere das revoltas camponesas similares do século XIV, na Itália, França e Inglaterra, no que estas revoltas foram de um carácter mais ou menos local e foram dirigidas contra a economia do dinheiro, então em processo de desenvolvimento, enquanto a Guerra Camponesa, desdobrando-se na época do capitalismo primitivo que estava criando um mercado mundial, estava intimamente relacionada com os acontecimentos da Reforma. Este pano de fundo histórico mais complexo, em comparação com o do século XIV, tornou mais complexo o agrupamento das classes cuja luta determinou todo o curso da Guerra Camponesa. O papel dos elementos proletários também se torna mais pronunciado em comparação com levantamentos anteriores. 


Era natural que, com o crescimento de um movimento democrático na Alemanha, especialmente após a Revolução de Julho, na França, a atenção fosse dirigida para o estudo da grande Guerra Camponesa. Uma série de brochuras populares e obras que examinam as fases individuais do movimento fez sua aparição, e em 1841 foi publicada a obra monumental de [Wilhelm] Zimmermann, que, até o presente momento, permanece a narrativa mais detalhada dos acontecimentos da Guerra Camponesa na Alemanha. 


Foi também natural que os comunistas alemães, confrontados com a necessidade de determinar o quão longe os camponeses poderiam ser considerados um fator revolucionário, estudassem cuidadosamente a história da Guerra Camponesa. Sua atenção foi especialmente atraída para os líderes da guerra dos camponeses, um dos quais era Thomas Muenzer. É característico que, já em 1845, Engels, em um de seus primeiros artigos para o jornal cartista Northern Star, chamasse a atenção dos operários ingleses a este "famoso líder da guerra camponesa de 1525," que, segundo Engels, foi um verdadeiro democrata, e lutou por demandas reais, não ilusões. 


Marx e Engels, que muito sobriamente consideraram o papel do campesinato na realização de uma revolução social, nunca subestimaram o seu papel como um fator revolucionário na luta contra os grandes proprietários de terra e os senhores feudais. Eles entenderam muito bem que quanto mais o campesinato cai sob a liderança de classes revolucionárias que o unem, mais capaz é de ações políticas gerais. Liderados pelo proletariado revolucionário, apoiando a sua luta contra o capitalismo na cidade e na aldeia, o campesinato era um aliado muito importante. É por isso que Marx e Engels, durante a revolução de 1848-1849, denunciaram impiedosamente a conduta covarde da burguesia alemã que, por bajular os Junkers e temer o proletariado, recusou-se a defender os interesses do campesinato. 


Foi com o objetivo de instruir a democracia burguesa alemã que, em 1850, Engels, apoiado no material factual recolhido pelo democrata Zimmermann, escreveu esta magnífica história da Guerra Camponesa alemã. Primeiro, ele dá uma imagem da situação econômica e da composição de classe da Alemanha da época. Em seguida, ele mostra como surgem os vários grupos de oposição, com os seus programas, dessa situação, e faz uma viva caracterização de Lutero e Muenzer. O terceiro capítulo contém uma breve história dos levantes camponeses no Império Alemão de 1476 a 1517, ou seja, até o início da Reforma. No quarto capítulo temos a história da revolta da nobreza sob a liderança de Franz von Sickingen e Ulrich von Hutten. Os quinto e sexto capítulos contêm uma narrativa dos eventos da Guerra Camponesa como tal, com uma explicação detalhada das principais causas da derrota dos camponeses. Nos capítulos sétimo e oitavo, são explicados o significado da Guerra Camponesa e suas consequências na história alemã. 


Permeando toda a obra de Engels está a ideia da necessidade de uma luta implacável contra os senhores feudais, os latifundiários. Apenas uma abolição radical de todos os vestígios de dominação feudal, segundo ele, poderia criar as condições mais favoráveis ​​para o sucesso de uma revolução proletária. A este respeito, Engels estava em plena harmonia com Marx, que lhe escreveu depois (16 de agosto de 1856); "Tudo na Alemanha vai depender se a revolução proletária será apoiada por uma espécie de segunda edição da Guerra Camponesa.Só assim tudo irá bem" 


Muito diferente foi a concepção de Lassalle, que superestimou o significado da revolta da nobreza, idealizando Franz von Sickingen e Ulrich von Hutten, e tratando o movimento revolucionário dos estratos mais baixos plebeus com muito desprezo. Na sua opinião, a Guerra Camponesa, apesar de sua aparência revolucionária, era na realidade um movimento reacionário. "Vocês todos sabem", ele disse aos operários de Berlim, "que os camponeses mataram os nobres e queimaram seus castelos, ou, de acordo com o hábito vigente, os fez passar por um corredor polonês.No entanto, não obstante esta aparência revolucionária, o movimento foi, em essência e princípio,reacionária. 


Os populistas revolucionários russos, especialmente os adeptos de Bakunin, muitas vezes igualaram a visão de Lassalle dos camponeses com os pontos de vista de Marx e Engels. Nisso eles seguiram o exemplo de Bakunin, que escreveu o seguinte: 


"Todo mundo sabe que Lassalle repetidamente expressou a ideia de que a derrota do levante camponês no século XIV e o fortalecimento e rápido crescimento do Estado burocrático na Alemanha que se lhe seguiu foram um verdadeiro triunfo para a revolução". De acordo com Bakunin, os comunistas alemães viram todos os camponeses como elementos da reação. "O fato é", acrescentou, "que os marxistas não podem pensar de outra forma;adoradores do poder do Estado, a qualquer preço, eles são obrigados a amaldiçoar a revolução de todos os povos, especialmente uma revolução camponesa, que é anárquica por natureza, e que se desenvolve diretamente para aniquilar o Estado". 


Quando Bakunin escreveu estas linhas, já existia a segunda edição da obra de Engels sobre a Guerra Camponesa, com um novo prefácio (1870), no qual Liebknecht e outros socialdemocratas alemães contemporâneos foram criticados por sua inconsistência sobre a questão agrária. Em 1875, a terceira edição apareceu com outro prefácio que enfatizou ainda mais a diferença nítida entre os pontos de vista de Marx e Engels, por um lado, e Lassalle, por outro. 


Deve-se notar que, nos últimos anos de sua vida, Engels dedicou muito trabalho ao estudo da Guerra Camponesa, e estava prestes a reformular o seu antigo trabalho. 


Em 1882 ele escreveu um adendo ao seu Socialismo, Utópico e Científico dedicado à história do campesinato alemão. Em 31 de dezembro de 1884, ele escreveu para Sorge: "Eu estou submetendo meu Guerra Camponesa a uma reconstrução radical. Ele vai tornar-se a pedra angular da história alemã. É uma grande obra. Todo o trabalho preliminar está quase pronto". 


O trabalho de preparação do segundo e terceiro volumes de Capital para publicação impediu-o de realizar seu plano. Em julho de 1893, ele escreveu a Mehring: "Se eu conseguir reescrever a introdução histórica de meu Guerra Camponesa, que espero ser possível neste inverno, vou apresentar nele uma exposição dos meus pontos de vista" [relativos às condições da divisão da Alemanha e às causas da derrota da revolução burguesa alemã do século XVI]. 


Quando Kautsky estava escrevendo seu livro sobre os precursores do socialismo moderno - que apareceu em fascículos - Engels escreveu a ele em 21 de maio de 1895: "Posso dizer-lhe que quanto mais seu livro é publicado, melhor ele fica. Comparado com o plano original, Platão e o cristianismo primitivo não estão suficientemente trabalhados. As seitas medievais estão muito melhores, e os posteriores, mais ainda. O melhor de tudo são os TaboritesMuenzer, e os anabatistas. Eu estou aprendendo muito com seu livro. Para a reformulação de meuGuerra Camponesa, é uma obra preliminar indispensável. 


"Em minha opinião, há apenas duas falhas consideráveis: 


"(1) uma visão muito insuficiente do desenvolvimento e do papel desses elementos inteiramente fora da hierarquia feudal, que são déclassé, ocupando quase o lugar de párias; elementos que formam a camada inferior da população de toda cidade medieval, sem direitos e fora da comunidade rural, da dependência feudal, dos laços das guildas. Isso é difícil, mas é o principal fundamento, uma vez que, gradualmente, com a decomposição das relações feudais, deste estrato se desenvolve o antecessor do proletariado que, em 1789, nos faubourgs de Paris, fez a revolução. Você fala dos proletários, mas esta expressão não é inteiramente exata; quando você contar entre os seus 'proletários' os tecelões, cujo significado você retrata corretamente, você pode dizer isso, mas somente a partir do momento em que os tecelões jornaleiros, não ligados às guildas (corporações de ofício) desclassados (déclassé), fazem sua aparição e apenas à medida que estes últimos passaram a existir. Muito trabalho ainda é necessário neste contexto. 


"(2) Você não leva suficientemente em conta a situação do mercado mundial, à medida que se pode falar de um tal mercado naquela época, e da situação econômica internacional da Alemanha no final do século XV. No entanto, apenas esta situação explica por que o movimento burguês-plebeu sob um manto religioso, tendo sofrido uma derrota na Inglaterra, Holanda e Bohemia, poderia ser bem-sucedido na Alemanha do século XVI. Isto foi devido ao seu manto religioso, ao passo que o sucesso de seu conteúdoburguês foi reservado para o século seguinte e para os países que utilizaram o desenvolvimento do mercado mundial, que tinha, entretanto, tomado outra direção, ou seja, Holanda e Inglaterra. É um grande assunto, que eu espero tratar brevemente noGuerra Camponesa, se eu conseguir toma-lo!" 


A morte - Engels morreu alguns dias depois escrever esta carta (em 05 de agosto de 1895)  impediu-o de completar este trabalho. 


D. Riazanov 


 
Todo o mundo

Publicado por David Riazanov em 1928

Marx e Engels foram acusados por muito tempo de blanquismo. Bernstein foi ainda mais longe. Em 1898, ele declarou: "Na Alemanha, Marx e Engels, com base na dialética hegeliana radical, desenvolveram uma teoria intimamente relacionada ao blanquismo". Sem levar em conta sua permanente rejeição ao putschismo, Bernstein também declarou: "Eles (os escritos inspirados por Marx e Engels na época da Liga Comunista - DR) estão totalmente impregnados de um espírito Blanquista-Baboeufista". [1]

A melhor prova dessa afirmação, segundo Bernstein, é fornecida pela atitude que Marx tomou em relação aos acontecimentos da Revolução de Fevereiro [de 1848 na França, ndt]. Enquanto Bernstein considerava o partido de Louis Blanc e da Comissão de Luxemburgo como o "único partido proletário", Marx, pelo contrário, considerava os blanquistas como tal.

Bernstein apela à circular da Liga Comunista (Mensagem ao Comitê Central da Liga de junho de 1850), mas ele poderia apontar com maior justificação as seguintes frases de Marx em A luta de classes em França - uma passagem que ele passa por cima, como também faz Kautsky, que interpreta a "ditadura do proletariado" como uma mera frase casual proferida por Marx acidentalmente por um deslize da língua, e não, no mínimo, como a própria essência da estratégia revolucionária marxista.

"Enquanto os utopistas e socialistas doutrinários (ou seja, o socialismo de Louis Blanc e dos seus amigos - DR) subordinam todo o movimento a um fator interno a ele, colocam as ruminações de um único pedante antes da produção social comum, e acima de tudo evitam a luta de classes revolucionária e suas exigências com pequenos truques ou grandes sentimentalismos ... o proletariado está se voltando cada vez mais para o socialismo revolucionário, para aquele comunismo ao qual a própria burguesia deu o nome de blanquismo".

Qual é o conteúdo deste socialismo?

"Este socialismo é a declaração da permanência da revolução, a ditadura de classe do proletariado como etapa necessária para a abolição de todas as diferenças de classe, a abolição de todo o sistema de produção sobre o qual repousam, a abolição de todas as condições sociais que correspondem a essas relações de produção, a destruição de todas as ideias que surgem destas condições sociais." [2]

Bernstein recorreu a um truque ainda mais desprezível, à medida que utilizou muito pouco outros textos de Engels, como os manuscritos de Naturdialektik [Dialética da Natureza, ndt], que estava em sua posse, uma ação que foi calculada para destruir a última dúvida quanto à influência "profana" exercida sobre Marx e Engels pela dialética hegeliana. Isso aconteceu da seguinte maneira. Entre os papéis legados a ele por seu velho mestre estava oculto por três décadas, nada menos que um tesouro, um acordo com os blanquistas, assinado por Marx e Engels com suas próprias mãos, segundo o qual os comunistas alemães, franceses e ingleses deveriam organizar uma "Liga Mundial de Comunistas Revolucionários".

No primeiro parágrafo deste documento, diz-se:

"O objetivo da associação é o fim de todas as classes privilegiadas e a sujeição dessas classes à ditadura do proletariado, mantendo a revolução em permanência até a realização do comunismo, que é a forma final de organização da sociedade humana." [3]

O acordo foi assinado por Adam e Vidil em nome dos blanquistas, por Willich, Marx e Engels pelos comunistas alemães, e por Harney pelos comunistas ingleses.

Vamos compará-lo com o texto do primeiro artigo dos Estatutos da Liga Comunista.

"O objetivo da Liga é o fim da burguesia, o poder do proletariado, a abolição da antiga sociedade burguesa baseada nos antagonismos de classes, e o estabelecimento de uma nova sociedade sem classes nem propriedade privada". [4]

A diferença é óbvia. O "poder do proletariado" é substituído pela "ditadura do proletariado", a “revolução” é substituída por uma "revolução permanente" (la révolution en permanence).

A primeira mudança pode ser considerada de natureza editorial, embora tenha resultado das experiências da Revolução de 1848 e, especialmente, dos acontecimentos em Paris entre 24 de fevereiro e os dias de junho; a última resultou em um acréscimo que, como já expus em outro texto, apareceu pela primeira vez depois de 1848-49, embora a expressão apareça nos primeiros trabalhos de Marx sobre as lições da grande Revolução Francesa, particularmente sobre as lições dadas pelos jacobinos que apoiaram a "révolution en permanence".

O acordo reproduzido aqui está escrito no espírito da famosa circular da Liga Comunista. É bem sabido que a Liga não viveu muito tempo, pois já em setembro de 1850 havia se dividido em uma fração de Marx e uma fração de Willich-Schapper. Dos signatários do acordo, Vidil estava do lado de Willich e Adam, de Marx. A divisão na Liga Comunista também se refletiu em uma divisão nas fileiras dos "socialistas democráticos" franceses, entre os quais um número considerável era conhecido por Louis Blanc, que então se esforçava para chegar a um entendimento com os radicais burgueses. Os blanquistas aliados de Louis Blanc viram-se obrigados, no momento do Banquete dos Iguais (Banquete des égaux), realizado em 1851, no terceiro aniversário de 24 de Fevereiro, a manter em segredo o manifesto [5] recebido por eles do prisioneiro Blanqui, no qual ele faz críticas devastadoras à atitude de Ledru-Rollin, e ainda mais de Louis Blanc. Falaremos desses episódios interessantes da história da emigração em outra hora. Aqui nos limitamos a chamar a atenção do leitor para os numerosos pontos de contato entre a crítica de Marx ao governo provisório de Lamartine, Ledru-Rollin e Louis Blanc, e a de Blanqui.

Apêndice I

A Liga Mundial de Comunistas Revolucionários

(Société Universelle des Communistes Révolutionnaires)

(1) O objetivo da Associação é o fim de todas as classes privilegiadas e a sujeição dessas classes à ditadura do proletariado, pela manutenção da revolução em permanência até a realização do comunismo, que deve ser a forma final de organização da comunidade humana.

(2) Para a realização desse objetivo, a Associação unirá todas as seções do Partido Comunista revolucionário, desconsiderando as fronteiras nacionais de acordo com os princípios da fraternidade republicana.

(3) O comitê original da Liga é constituído como um comitê central e estabelecerá comitês onde for necessário para a execução dos trabalhos que estarão em contato com o comitê central.

(4) Nenhum limite é fixado para o número de membros da Liga, mas nenhum membro será admitido sem ser eleito por unanimidade. Em nenhum caso as eleições serão realizadas por escrutínio secreto.

(5) Todos os membros da Liga juram manter o parágrafo um das regras presentes no sentido mais amplo. Qualquer modificação que possa resultar num enfraquecimento dos objetivos expressos neste parágrafo libera os membros da Liga do seu envolvimento.

(6) Todas as decisões da sociedade que obtiverem uma maioria de dois terços dos eleitores devem ser adotadas.

(Assinado) J. Vidil, Adam, August Willich, K. Marx, G. Julian Harney, Fr. Engels.

Notas 1. Ed. Bernstein, Die Voraussetzungen des Sozialismus, Stuttgart, 1899, pp.28, 29. 2. Karl Marx, Die Klassenkämpfe em Frankreich, Berlim, P. Cantor, 1911, pp.93, 94. 3. Cf. Apêndice I . 4. Archiv fur die Geschichte des Sozialismus und der Arbeiterbewegung, Jahrgang 9 (1920), p.334. 5. A saudação foi enviada por Blanqui, de Belle-Isle a Londres, em resposta a um pedido de uma saudação para o banquete realizado em 25 de fevereiro de 1851 para celebrar o terceiro aniversário da revolução de 1848. Engels contou a história da saudação; “Barthélémy, autointitulando-se blanquista, convenceu Blanqui a enviar uma saudação ao congresso. No entanto, ele recebeu um ataque magnífico ao Governo Provisório, Louis Blanc & Cia, entre outros. Barthélémy, chocado, deixou o documento de lado e foi decidido não publicá-lo”. Veja http://www.marxists.org/reference/archive/blanqui/1851/toast.htm .

Originalmente publicado em Unter dem banner der Marxismus. (2º ano, no.1-2, 4-5)
 
Todo o mundo

publicado por David Riazanov em 1928


Prefácio ao Anti-Dühring, Moscou 1928.

Cinquenta anos se passaram desde o aparecimento do Anti-Dühring como um livro. O prefácio à primeira edição foi escrito por Engels, em 11 de junho de 1878. Esta data, no entanto, não é muito precisa. Os artigos contra Dühring foram impressos pela primeira vez no Vorwärts, o órgão central da socialdemocracia alemã. O primeiro artigo apareceu em 3 de janeiro, de 1877. A primeira parte do livro, Filosofia, foi publicada em dezenove edições até 13 de maio de 1877. Depois disso, houve uma interrupção. A segunda seção, Economia Política, começou a aparecer em 27 de julho, ocupou nove números e foi concluída em 30 de dezembro de 1877. A terceira seção, Socialismo, apareceu após um intervalo considerável que durou mais de quatro meses. Foi publicada em cinco números, começando em 5 de maio e terminando em 7 de julho de 1878. Assim, o último capítulo foi impresso no Vorwärts um mês depois do que é mostrado no prefácio.

Quando falamos da importância do Anti-Dühring, é necessário ter em conta a posição da socialdemocracia alemã naquele momento. É bem conhecido - especialmente para aqueles que estudaram as disputas em torno do Programa de Gotha – como era inadequada a base teórica marxista da socialdemocracia alemã em 1875. As disputas que ocorreram em torno deste projeto de programa comprometedor são bem conhecidas. Mas isso ainda não dá uma imagem completa do nível marxista extraordinariamente baixo que na época era característico da socialdemocracia alemã. Em um aspecto, Mehring estava certo. Se Marx e Engels estavam insatisfeitos com Liebknecht por causa do acordo feito com os lassalleanos1 em matéria de programa e tática, era porque superestimou a compreensão marxista nas fileiras do "eisenachianos", isto é, nas fileiras do partido que se considerava marxista. Se tomarmos o órgão central da socialdemocracia, mesmo depois da unificação, não encontraremos mais que um socialismo incrivelmente confuso, quase vulgar. Foi uma mistura monstruosa de algumas proposições de Marx, com algumas de Lassalle, e com toda uma série de teses, cuja origem se encontra na literatura burguesa contemporânea. Basta observar como, a partir de 1873, a autoridade de Dühring cresceu cada vez mais.

Os camaradas familiarizados com o Anti-Dühring normalmente têm a impressão de Dühring quase como um cretino absoluto. Mas Dühring não era idiota. Ele era uma grande figura. Ele tinha o que torna muitos desses homens ativos imediatamente atraentes para a juventude, ou seja, as qualidades de um homem com uma educação enciclopédica, que se orientava de forma inusitadamente livre em questões de ciência natural, filosofia, economia política e socialismo. Ele era um homem que podia dar à geração mais jovem, como se dizia popularmente, "um sistema da verdade". Ele deu um sistema completo de visão do mundo, deu respostas a todas as perguntas problemáticas. Além disso, ele era um homem conhecido da geração mais jovem por seu ódio aos professores e por sua vida pessoal não especialmente feliz, como seria de se esperar de um homem que perdeu a visão aos 28 anos e foi obrigado a adquirir todo o seu conhecimento com a ajuda de outras pessoas, quase por acaso. Ele era um homem que vivia em grande pobreza. Tudo isso gerou simpatia para com ele.

O patrocinador de Dühring na socialdemocracia alemã foi Bernstein. Temos, pelo menos, cinco recordações sobre Bernstein nesta interessante fase de sua vida. Em todas elas ele reconhece ser um discípulo muito zeloso e fervoroso de Dühring. Ele infectou Fritsch, Most, Bebel e Bracke com a "Dühringmania". Ele escreve que em 1873 ele nunca perdia uma ocasião de ouvir as palestras de Dühring e sempre levava com ele, em seu entusiasmo, toda uma série de camaradas, incluindo estrangeiros, em sua maioria russos. Ele deu o livro de

Dühring a Bebel, então na prisão, e Bebel escreveu da prisão, um artigo intitulado Um Novo Comunista, em março de 1874.

Bebel termina seu artigo da seguinte maneira:

"Todas as nossas considerações contra a concepção de Dühring não se referem a suas visões fundamentais. Nós as consideramos irrepreensíveis, e o consideramos com total aprovação. E não hesitamos em declarar que, depois de O Capital de Marx, o novo trabalho de Dühring pertence ao melhor que a nova era produziu na esfera econômica. Nós, portanto, recomendamos vivamente o estudo de seu livro."

Esta foi a resposta de Bebel, que estava insatisfeito com a unificação no congresso de Gotha, com o acordo de Gotha. Pode-se facilmente imaginar como este artigo foi recebido em Londres. Temos provas de que Engels enviou imediatamente um pedido a Berlim quanto a quem escreveu este artigo. Liebknecht apressou-se em reafirmar a Engels (13 de junho de 1874): -

"É claro, é impossível evitar tolices, mas logo que são reconhecidas elas são, na medida do possível, corrigidas. Você tem alguma base para acreditar que Dühring é um inútil ou um inimigo clandestino? Tudo o que me é conhecido sobre ele me fortalece na crença de que, embora seja confuso, é indubitavelmente honesto e permanece sem reservas de nosso lado. O artigo denunciado por você não era totalmente correto e foi escrito com uma medida ilimitada de entusiasmo. Em todo o caso, as intenções do autor foram certamente boas e o artigo não produziu um efeito ruim."

Um pouco mais tarde Bloss declara a Engels, escrevendo da prisão:

"Em relação à Dühring você está certo ... em sua História Crítica do socialismo e Economia Política, ele escreveu muito estupidez. Só agora li este livro.”

Depois que Liebknecht e particularmente Bloss tornaram-se mais conhecedores de Dühring, Liebknecht enviou um pedido a Engels em 1º de fevereiro de 1875, para que ele escrevesse um artigo sobre Dühring. Infelizmente, não há cartas de Engels e Marx no que diz respeito a isso, mas, obviamente, eles fizeram muito barulho. Liebknecht escreve:

"Quando é que vai ser possível receber de você algum trabalho sobre Dühring, que na segunda edição de sua História da economia política novamente repetiu todos as suas numerosas estupidezes sobre Marx? Eu estava assistindo as palestras deste homem antes do Natal. Megalomania, e ao mesmo tempo um ódio furioso de Marx, isto é tudo. Mas ele se enraizou muito fortemente entre nossa gente, especialmente em Berlim, e, consequentemente, é necessário examiná-lo a fundo. Você provavelmente tem a segunda edição. Se você não tiver, nós lhe enviaremos."

Em uma segunda carta, não diretamente para Engels ou Marx, mas para a esposa de Engels, Liebknecht acrescenta:

"Você deve dizer a Engels que ele precisa lidar a fundo com Dühring, mas é necessário lembrar uma coisa: Dühring está literalmente morrendo de fome".

Engels não concordou de boa vontade. Resistiu por um longo tempo. A partir de sua correspondência com Marx, sabemos que essa tarefa não o atraía particularmente, tanto mais que nesse momento ele estava no pleno fervor de sua ocupação com as ciências naturais. Foi pouco antes de ele ter comunicado a Marx e a Schorlemmer as teses básicas de sua dialética da natureza. Ele estava prestes a expandi-las em uma obra especial, e ele não queria desviar-se deste trabalho e ocupar-se com uma polêmica contra Dühring, que ele conhecia mais que Liebknecht. Marx e Engels já haviam rompido com Dühring. Engels interessou-se por ele no início dos anos sessenta, quando ele escreveu uma das primeiras críticas a O Capital. Eles já tinham descoberto nessa época que ele era um "docente especial"2 em economia política e um colaborador do jornal oficial Staatsanzeiger, para o qual Marx tinha se recusado a contribuir, e que Dühring tinha aberto um

processo contra o conhecido Conselheiro Wagener, no que diz respeito à autoria de uma certa produção, um relatório escrito para Bismarck, sobre como a questão socialista. Wagener achou que ele fosse um "docente especial" comum e colocou sua própria assinatura no relatório. Dühring abriu uma ação judicial contra ele e ganhou. Marx e Engels estavam cientes de que Dühring era um grande admirador de Carey e List na esfera da economia política, que não era conhecido pelos camaradas mais jovens.

Consequentemente, Engels, que acabava de começar a abordar um assunto mais interessante, não estava disposto a ocupar-se de Dühring. E, a partir da correspondência, é possível ver quanta pressão foi feita por parte de Liebknecht para que Engels finalmente assumisse o trabalho.

Em 1875-76 o culto a Dühring tornou-se cada vez mais forte.

"Em vez do lema de luta ‘Lassalle ou Marx’”, escreve Bernstein em sua mais recente autobiografia, "parecia que havia um novo slogan, ‘Dühring ou Marx e Lassalle’. E em tudo isso eu tive boa parte da responsabilidade."

Foram feitas várias tentativas de utilizar o Vorwärts para promover Dühring. Na verdade, Liebknecht engajava-se em uma luta tenaz, depois de ter permitido este erro por parte da Bebel, a fim de não permitir que o Vorwärts fosse convertido em um órgão que exaltasse Dühring como um pensador em um nível de igualdade com Marx. A questão tornou-se ainda mais complicada quando Most escreveu um grande artigo filosófico sobre Dühring e o enviou a Liebknecht. Em 1876, Most até ultrapassou Bernstein em sua admiração a Dühring; como um trabalhador enérgico e um magnífico agitador, ele ganhou para Dühring grande popularidade entre os operários de Berlim, pois o Berliner Freie Presse, o órgão da Organização de Berlim, sofria muita influência de Most.

Ao receber o artigo de Most, Liebknecht mandou-o propositadamente a Engels, porque ele presumiu que Engels, depois de lê-lo, entenderia que, quer ele gostasse de fazer isso ou não, era necessário iniciar o trabalho sobre Dühring. Engels finalmente concordou em escrever uma série de artigos sobre Dühring e começou a tarefa.

Não vou me deter mais detalhadamente neste ponto, porque a correspondência de Marx e Engels dá toda uma série de indícios da relutância com que Engels se dirigiu, no início, a este assunto. Em todo caso, não pôde enviar o primeiro artigo antes do outono de 1876. Esta foi a primeira seção, sobre Filosofia.

Mas aqui ocorreu um pequeno contratempo: Liebknecht não esperava que Engels enviasse seu artigo tão tarde. Ele esperava-o mais cedo, no início da campanha eleitoral - as eleições ocorreram em janeiro de 1877. É compreensível que Liebknecht e um número de outros camaradas estivessem extremamente ocupados com a campanha eleitoral, para prestar atenção em como os artigos de Engels seriam impressos. É claro que Engels estava plenamente justificado em sua insatisfação. Teria sido impossível fazer uso dos artigos de Engels de forma pior do que foi feito pelo Vorwärts durante janeiro de 1877. Os capítulos da seção sobre Filosofia foram impressos com erros abundantes, e foram divididos aleatoriamente, sem qualquer lógica. Recebendo seus artigos nessa forma vergonhosa, Engels estava quase fora de si e trovejava aos editores em suas cartas, vendo em tudo isso quase uma intriga dos partidários de Dühring. Tal pensamento ocorreria, de fato, muito naturalmente, a qualquer pessoa que visse como esta seção do Anti-Dühring foi impressa.

Finalmente, Engels escreveu uma de suas mais duras cartas a Liebknecht. As cartas de Engels a Liebknecht eram sempre escritas em termos muito claros, mas esta era uma carta para lá de clara. Engels acusou Liebknecht de todos os pecados mortais. Mas Liebknecht sempre demonstrou grande paciência em relação ao "velho". Explicou a Engels que tudo se devia à campanha eleitoral, e finalmente a paz foi feita entre eles, mas isso foi seguido imediatamente por um novo incidente, o famoso Congresso de Gotha de 1877. A última parte da seção sobre Filosofia foi impressa em 13 de maio de 1877 e o Congresso de Gotha ocorreu de 27 a 29 de maio de 1877. Vejamos como a história deste Congresso é dada por dois autores. Em primeiro lugar, ouviremos Mehring:

"Quão grandemente o livro de Engels era necessário foi mostrado talvez da forma mais impressionante pela recepção um tanto desfavorável por parte do Partido. Most e os outros estiveram perto de fechar

as colunas dos Vorwärts a ele, dando, assim, para o herege Engels um destino semelhante ao já dado para Dühring pela camarilha oficial da universidade. Felizmente, o Congresso de 1877 não deu esse passo. Puramente com base em considerações de ordem prática, decidiu continuar a publicação dessa polêmica puramente científica em seu jornal, mas apenas em um suplemento científico ao órgão central. Não poucas palavras afiadas foram ditas, no entanto. Neisser acusou o conselho editorial do Vorwärts de não fazer esforços suficientes para uma adequada supervisão do trabalho de Engels e Walteich, que já havia criticado Lassalle, observou, em sua maneira arrogante, que o tom de Engels condenava seu gosto literário à ruína e por causa dele a mensagem espiritual fornecida pelo Vorwärts estava se tornando absolutamente intragável".

Este é o relato de Mehring. Passemos agora à história de Bebel:

"Ainda mais desagradável foram os debates provocados por Most sobre o assunto dos artigos de Engels no Vorwärts dirigidos contra Dühring. Este último tinha conseguido que quase todos os líderes do movimento operário de Berlim ficassem do seu lado. Fui também de opinião de que, para fins de agitação, era necessário apoiar e utilizar toda tendência literária que, como as obras de Dühring, criticava duramente a ordem social existente e se declarava a favor do comunismo. Deste ponto de vista, em 1874 eu já tinha escrito da prisão para o Volkstaat dois artigos sob o título Um novo Comunista, no qual eu examinava as obras de Dühring. Elas haviam sido enviadas a mim por Edward Bernstein que, naquela época, juntamente com Most, Fritsch, etc., pertencia aos mais fervorosos admiradores de Dühring. A circunstância de que Dühring entrou rapidamente em conflito com as autoridades da universidade e com o governo - um conflito que terminou com sua demissão em junho de 1877, da Universidade de Berlim – elevou ainda mais seu prestígio aos olhos de seus seguidores. Tudo isso levou Most a apresentar a proposta de que, para o futuro, artigos como os de Engels contra Dühring, que não apresentassem qualquer interesse à grande massa de leitores ou evocassem a insatisfação dos leitores, não deveriam mais ser publicados no órgão central".

Tanto Bebel quanto Mehring, no entanto, não mostram exatamente o que ocorreu no Congresso. Havia coisas ainda mais desagradáveis. As observações de Neisser já foram dadas por Mehring. Liebknecht indignou-se contra Neisser. Em seguida, Most e seus companheiros apresentaram uma resolução para que o Congresso declarasse que "artigos como os recentes artigos de Engels contra Dühring são totalmente desprovidos de interesse para os leitores do Vorwärts, e devem ser removidom do órgão central". Liebknecht, é claro, quis protestar, mas foi introduzida imediatamente outra proposta por Kleimich e seus companheiros, que "as discussões sobre a proposta de Most e outras propostas relativas aos artigos de Engels no Vorwärts, deveriam ser introduzidas apenas do ponto de vista prático e nunca do ponto de vista do princípio ou da ciência".

Esta resolução de Kleimich foi aprovada por trinta e sete votos a trinta e seis. Depois disto, Liebknecht declarou que as discussões perderam todo o significado se sobre esta questão era possível falar somente do ponto de vista prático. Então Bebel e seus companheiros introduziram uma resolução como segue:

"Levando em consideração o comprimento (!) dos artigos de Engels contra Dühring e presumindo que, no futuro, eles vão se tornar ainda mais longos, e tendo em conta que a polêmica que está sendo realizada por Engels nas colunas do Vorwärts contra Dühring ou contra o seu adeptos vai dar a este último e seus adeptos o direito de responder com artigos igualmente longos e, desta forma, tomar excessivamente o espaço do Vorwärts, e tendo em conta que a nossa causa não tem nada a ganhar com isso, já que é uma questão de disputa puramente científica, o Congresso resolve que a publicação dos artigos de Engels contra Dühring no caderno central do Vorwärts cessarão, e que todos esses artigos deverão ser impressos no suplemento científico: suplemento do Vorwärts ou como um folheto separado. E, do mesmo modo, todos os futuros debates no que diz respeito a este assunto especial deverão ser removidos do caderno central do Vorwärts."

Esta resolução foi aceita pelo Congresso depois que Most retirou sua resolução e identificou-se com a proposta de Bebel. Assim, neste Congresso Bebel desempenhou um papel consideravelmente diferente do descrito em suas memórias.

Liebknecht, em uma de suas cartas a Engels, escreve que, infelizmente, ele não teve chance de conversar sobre estas coisas com Bebel, e Bebel cometeu esse erro. De qualquer modo, todo este episódio relativo aos artigos de Dühring e Engels no órgão central, cujo editor principal era Liebknecht, e no qual Bebel tinha grande influência, é muito característico do calibre intelectual do Partido Social-Democrata alemão desse tempo.

A polícia e as autoridades universitárias vieram novamente à ajuda de Dühring. O congresso terminou em maio de 1877. Engels teve que continuar seus artigos. Justamente nesse período, Dühring atingiu o auge de sua popularidade. O Ministério da Educação levantou a questão sobre a demissão de Dühring da Universidade de Berlim. Este foi um dos grandes eventos na Europa na época, e foi seguido atentamente em nossa própria pátria onde, já antes disso, o povo tinha começado a se interessar por Dühring. Mikhailovsky escreveu um longo artigo em Notas da Pátria com o nome o Escândalo na Universidade de Berlim. O Vorwärts e Liebknecht também foram obrigados a sair em defesa de Dühring, pois era impossível deixá-lo à mercê das autoridades universitárias. Uma série de artigos apareceu no Vorwärts em defesa de Dühring, e desta vez não como o autor de um sistema definido, mas simplesmente como o defensor da liberdade da ciência que era necessária defender contra o Estado policial prussiano. O Vorwärts publicou até mesmo poemas e odes em homenagem a Dühring, bem no intervalo entre a publicação da primeira e segunda seções do Anti-Dühring. Muitos jovens estudantes - Schippel, Emmanuel Wurm, Firek, Manfred Wittich - vieram em defesa de Dühring junto com Fritsch e Most, o último organizando reuniões de trabalhadores, etc. Os outros, por seu lado, organizaram uma série de reuniões de estudantes, onde Dühring foi defendido como um representante da ciência oprimida. Mehring declara em sua História da Socialdemocracia Alemã que este foi o último movimento idealista entre os estudantes alemães.

Dühring, que atraía simpatia como um sábio perseguido pelo Estado, entretanto, expulsou quase todos os seus adeptos por seu caráter insuportável. No momento em que alcançou o seu maior sucesso ao aproximar-se dos trabalhadores de Berlim e dos seus dirigentes, cometeu uma série de atos que tornaram impossível qualquer tipo de trabalho conjunto com ele. Assim, ele quis opor uma academia livre à universidade estadual, e elaborou regulamentos para esta academia, mas de tal tipo que ele desgostou os socialdemocratas de Berlim. Ele opôs-se que sua academia livre pudesse ser uma universidade operária, que ele se recusou a considerar, pois ele não tinha a intenção, como escreveu, de dar a ninguém a oportunidade de explorá-lo. Bernstein suspeitava que Dühring, como escreve em duas variantes de suas memórias, organizou a campanha contra Engels no Congresso de Gotha junto com Most. E tinha motivos para isso.

O Berliner Freie Presse, no qual Most e seus companheiros participavam, ainda estava defendendo Dühring in toto em outubro de 1878. Mas, no começo de novembro, ocorreu uma ruptura completa. Dühring chegou à conclusão de que Most e seus amigos tinham a intenção de sacrificá-lo para Liebknecht, e que eles não cumpririam suas promessas, à medida que não conseguissem assegurar o fim da publicação dos artigos de Engels nos Vorwärts. Assim escreveu Bernstein. Dühring declarou que os socialdemocratas simplesmente desejavam utilizá-lo para seu partido, e assim arruinar sua carreira científica.

Bernstein, em outra variante de suas memórias, escreve: "Não foi Engels quem matou Dühring, mas Dühring que se matou".

A mesma ideia é encontrada em uma carta de Liebknecht a Engels. Naturalmente, isso é um exagero. Dühring perdera prestígio pessoal, mas o culto a Dühring ainda não tinha vencido; era ainda necessário lutar com ele, e isso foi mostrado mais claramente precisamente em 1878. A nova revista O Futuro foi fundada, cujo antecessor era o suplemento científico do Vorwärts. O programa desta revista, que pretendia servir de órgão científico central do partido, constituía uma mistura tão eclética que Engels escreveu a Marx, com plena justificação, de que se havia desenvolvido na Alemanha um novo socialismo vulgar, digno de ser igualado ao "verdadeiro socialismo" de 1845. Consequentemente, Engels escreveu os artigos subsequentes contra Dühring, os das seções Economia Política e Socialismo, de uma maneira diferente. Golpeou Dühring, mas também dirigiu seus golpes contra Most, Fritsch, Liebknecht e Bebel. Em algumas passagens, Engels polemiza diretamente contra eles, embora não os mencione pelo nome.

Resta dizer algo sobre o significado do Anti-Dühring. Já mencionei as principais causas da popularidade de Dühring. Isso deve sempre ser mantido em mente. Dühring deu à juventude revolucionária uma filosofia de

mundo. Ele lhes deu um sistema de ideias. Deu-lhes um sistema de respostas a perguntas incômodas. O que tinha um marxista naquela época? Havia o Manifesto Comunista. Mas o Manifesto Comunista, sem tudo o que havia precedido, sem todos os dados preparatórias, do qual foi a conclusão, sem o conhecimento histórico apropriado, era menos inteligível que o Programa dos Trabalhadores de Lassalle. Deve-se acrescentar ainda que foi só quando uma nova edição foi publicada em 1872, depois de ficar esgotado por um longo tempo, que atingiu uma circulação realmente grande. O Capital foi bastante lido. Mas, mesmo para Liebknecht, O Capital foi principalmente um livro que lhe deu material para um discurso no Reichstag sobre a legislação da classe trabalhadora, que lhe fornecia material para algum discurso de aniversário [do partido, ndt], se quisesse mostrar até que ponto os trabalhadores eram explorados pelo capitalismo. Liebknecht estava francamente convencido, em 1874, de que Buckle era o maior de todos os historiadores e criador de uma nova concepção da história do mundo, enquanto Marx era apenas o criador de um novo sistema econômico. Assim como na Rússia, O Capital, em suas partes filosóficas e histórico-materialistas, permaneceu para os leitores de Marx "um capítulo não lido de um livro favorito" - como Plekhanov expressou.

A colaboração literária de Engels com o Volksstaat (Estado Popular), que apareceu sob a direção de Liebknecht, começou em 1873. Ele teve que responder a várias questões práticas. Um certo Mühlberger escreveu um artigo sobre o problema da habitação, que mostrou que o Estado Popular tinha esquecido a diferença entre Proudhon e o marxismo, e Engels usou esta oportunidade para dar uma magnífica exposição da diferença entre Proudhon e o marxismo neste exemplo concreto. Este era o modo alemão mais erudito e mais fundamental - escrever para uma ocasião concreta. Ainda faltava uma descrição de todo o sistema da filosofia mundial. Isto foi determinado pela primeira vez no Anti-Duhring. O próprio Engels diz-nos onde reside a importância do Anti-Dühring:

"Ela (a polêmica contra Dühring) deu, por um lado, a oportunidade de desenvolver de forma positiva, nos temas muito variados tratados no livro, as minhas opiniões sobre questões de interesse científico ou prático mais geral... Foi necessário entrar em todas as suas concepções e declarar as minhas em oposição às dele. A crítica negativa tornou-se, graças a isso, positiva. A polêmica foi transformada em uma exposição mais ou menos conectada do método dialético e da filosofia-mundo comunista defendida por Marx e eu e, além disso, sobre uma gama bastante abrangente de assuntos."

Engels assim reconhece que a polêmica contra Dühring o induziu a apresentar um sistema em oposição a outro sistema, uma filosofia mundial em oposição a outra filosofia mundial. E nisso reside o principal significado do Anti-Dühring. Marx e Engels, naturalmente, sabiam - o que só agora eu sei - que, na sua pasta de arquivos estava o manuscrito de A ideologia alemã. Eles sabiam que tinham a possibilidade, nos anos quarenta, de colocar, em oposição à filosofia burguesa do "verdadeiro socialismo", seu sistema de filosofia comunista mundial. Mas só Marx e Engels sabiam disso. Liebknecht, que havia trabalhado e vivido em estreita colaboração com Marx e Engels durante doze anos, não o sabia. Os inúmeros leitores não o sabiam e, naturalmente, nenhum leitor do Programa de Gotha poderia ter tido qualquer ideia. Pela primeira vez, em 1878, no Anti-Dühring foi exposto um sistema de filosofia comunista que poderia refutar a filosofia pequeno-burguês em todas as suas diversas variedades - e para isto, Marx e Engels, naturalmente, basearam-se em seu trabalho anterior.

Agora (e este é um ponto muito interessante), quando lemos os capítulos de A ideologia alemã dedicados a Feuerbach - eles foram publicados nos Arquivos editados pelo Instituto Marx-Engels - é possível estabelecer até que ponto Marx e Engels tinham mudado seu ponto de vista. Não desde o tempo da Sagrada Família – na época o camarada Stepanov estaria certo -, pois o ponto de vista adotado por Marx e Engels neste trabalho já havia sido "retirado" na Ideologia alemã. Essa foi uma fase ainda mais remosta. Essa era uma aproximação ao marxismo, mas não era ainda marxismo.

Em um de seus artigos contra Heinzen, Marx disse:

"Onde ele consegue observar a diversidade, ele não vê a unidade, e onde vê a unidade, ele não vê a diversidade. Quando consegue estabelecer várias definições, elas ficam imediatamente petrificados em suas mãos, e ele considera como o sofisma mais nocivo a definição dessas concepções umas contra as outros, como se pegassem fogo e viessem à vida.”

Entre o ponto de vista da Ideologia Alemã e o que se desenvolveu no primeiro volume de O Capital não há qualquer tipo de "salto". As concepções básicas que Engels desenvolveu no Anti-Dühring na seção de Filosofia, mesmo nas partes relacionadas às ciências naturais, já tinham sido completamente formuladas em O Capital em uma série de observações, que foram tão distorcidas por Dühring. No Anti-Dühring, Engels desenvolve o método dialético que Marx e ele tinham criado e que tinham empregado desde 1846, desde o tempo da Ideologia alemã.

Quando publiquei Dialética da Natureza de Engels, que eu tinha descoberto, meu prefácio enfatizou que, em comparação com o que Engels havia dito no Anti-Dühring, este não continha nenhuma ideia nova. Eu escrevi "nenhuma ideia nova" intencionalmente. A tentativa insustentável de alguns companheiros de encontrar algumas diferenças entre o Anti-Dühring e Engels da década de oitenta, que tinha "concepções completamente opostas", surge do entendimento pouco claro de algumas observações no Anti-Dühring e de uma leitura desatenta do prefácio de Engels para a segunda edição do Anti-Dühring.

O que Engels diz neste prefácio? Que ele está lidando com Dühring em um momento em que estava passando por um "processo de reciclagem" no que diz respeito às ciências naturais. Ele usa uma terminologia pouco exata. Não tinha à sua disposição o que necessitava, e esperava que ele pudesse mais tarde expor sua concepção em uma forma mais cuidadosamente pensada. Ele escreveu isso em 1885. Quem lê cuidadosamente o prefácio da segunda edição sabe que Engels, de maneira consciente, por um sentimento de peculiar tato literário, preocupou-se com qualquer mudança. É preciso ler as cartas de Engels a Marx para compreender quão difícil foi para Engels, por razões puramente humanas, escrever polêmicas contra Dühring. Ele disse que era muito difícil para ele escrever contra uma pessoa cega. Ele teve que lutar consigo mesmo por um longo tempo para superar esse sentimento claramente sentimental. E, portanto, ele disse novamente em seu prefácio, que ele não poderia ter escrito de outra forma do que fez em 1878.

Eu já referi, na minha introdução à Dialética da Natureza, que Engels não conhecia a tabela periódica de Mendeleiev quando escreveu o Anti-Dühring. Não se deve esquecer que os artigos da seção de Filosofia foram todos publicados antes de maio de 1877, e que tinham sido enviados para publicação antes do outono de 1876. Engels não teve a oportunidade de estudar a literatura técnica de química, que estava espalhada em várias revistas científicas. Pode-se mencionar, para justifica-lo, que só em 1877 a exposição da lei de Mendeleiev apareceu em um "compêndio" como o livro de química de Roscoe e Schorlemmer. Engels poderia usá-la para a segunda edição, em 1885, quando tinha à sua disposição uma massa de material que confirmou suas concepções básicas, mas deliberadamente não o fez. No prefácio da segunda edição ele dá a sugestão de um trabalho futuro, mas ele não muda de opinião. A mesma concepção básica formulada no Anti-Dühring aparece em notas e projetos de artigos escritos depois de 1878, só que melhor explicada. Em relação a isso, qualquer tentativa de provar uma contradição entre Engels em 1878 e de 1882, baseada no desejo de colocar um novo rótulo em uma velha ideia, está condenada ao fracasso absoluto.

Depois do Anti-Dühring, Engels teve a oportunidade de desenvolver mais plenamente alguns dos conceitos formulados brevemente na seção filosófica de sua polêmica contra Dühring. Em seu trabalho especial sobre Feuerbach, ele fez uma exposição detalhada de suas próprias relações e de Marx com a filosofia de Hegel e Feuerbach. Em conexão com isso, Engels também deu uma resposta positiva a um grande número de questões relacionadas à filosofia, à ética e às ciências sociais. Desta forma, o livro de Engels sobre Feuerbach torna-se não apenas um complemento importante, mas também um excelente comentário sobre os capítulos correspondentes do Anti-Dühring. Não menos importante agora, neste contexto, são as partes que publiquei da Ideologia Alemã e Dialética da Natureza.

Deve-se especialmente chamar a atenção para brilhante descrição de Engels, na primeira parte, da origem e desenvolvimento da ideia de igualdade. Marx já havia mostrado em O Capital que a determinação do valor das mercadorias pelo trabalho [contido nelas, ndt] e da livre troca desses produtos do trabalho em função deste valor, é o verdadeiro fundamento de toda ideologia política, jurídica e filosófica da burguesia moderna.

O esboço de Engels serviu de estímulo para uma série de obras marxistas - em particular por Lafargue, Kautsky e Plekhanov - nas quais a origem de vários tipos de ideias "eternas" é investigada.

A segunda seção do Anti-Dühring é dedicada aos problemas básicos da teoria econômica marxista e até hoje constitui a introdução de maior autoridade para um estudo de O Capital. Engels dá definições do assunto, o método e as tarefas de economia política. Sobre este ponto eu não concordo com aqueles que consideram a economia política como uma ciência que investiga apenas as mercadorias e as relações mercantis capitalistas, e com quem concebe o direito apenas como o direito dos produtores de mercadorias. Todas essas tentativas constituem um desejo de dar um "começo" e um "fim" para tudo, de definir exatamente, de apontar com precisão quando o desenvolvimento ainda está em andamento, quando uma forma posterior abole a anterior, explica-a e é em si totalmente explicada pelas formas que a antecederam.

A segunda seção contém artigos notáveis dedicados à teoria da força, pela qual as relações mútuas entre os fatores econômicos e políticos da história da sociedade humana são explicadas de uma forma magistral. Além disso, Engels dá uma história concisa da arte da guerra, mostrando o grande significado que o estudo da história da arte da guerra tem para a interpretação materialista da história. A importância completa desses capítulos só será plenamente entendida quando todos os escritos sobre questões militares de Engels forem publicados, mas, em conjunto com o prefácio ao livro de Borkheim (1887) e o artigo A Europa pode se desarmar? (1893), o esboço que Engels deu no Anti-Dühring representa a formulação mais clara de seus pontos de vista, após longos anos de estudo da história e da teoria da guerra.

Ele foi capaz de prever a futura guerra imperialista e de esboçar suas consequências prováveis com uma precisão quase profética. É verdade que a história da arte da guerra esboçada no Anti-Dühring acaba em 1877. A guerra franco-alemã de 1870 foi a última grande guerra examinada por Engels. A este respeito, o esboço de Engels tem necessidade de suplementação considerável.

Pode-se dizer que algumas das afirmações de Engels não são totalmente incontestáveis. Particularmente quando ele escreveu que os armamentos usados na época da Guerra franco-alemã "tinham alcançado tal perfeição que novas melhorias neste sentido não teriam uma influência decisiva". Até mesmo as armas de fogo foram submetidas a um desenvolvimento considerável desde 1878. Novos ramos da técnica militar apareceram, com base no desenvolvimento de aviões e da indústria química. O submarino trouxe mudanças na esfera da guerra naval. É verdade que as experiências da guerra de 1914-1918 justificam plenamente as conclusões de Engels baseadas em sua análise da questão da concorrência entre blindados e artilharia. Mesmo na forma de couraçados, o cruzador "foi levado a tal perfeição que se tornou tão invulnerável quanto inadequado para uso".

Mas Engels revelou de forma notável a dialética interna do militarismo. O militarismo, na sua forma imperialista moderna, traz dentro de si todas as sementes de sua própria destruição.

"O que a democracia burguesa de 1848 não poderia trazer, apenas por ser burguesa e não proletária, isto é, dar às massas operárias uma vontade consciente, correspondente à sua posição de classe, irá inevitavelmente ser alcançado no socialismo (comunismo). E isso significa a autodestruição do militarismo e com ele de todos os exércitos permanentes.”

A terceira seção do Anti-Dühring lida com o socialismo. Nós já vimos como Bebel avaliou os antecessores de Marx e Engels, os socialistas utópicos. Dühring distorceu, em suas obras, não só a história da economia política, mas também a história do socialismo. O livro de Engels deu um novo e poderoso impulso ao estudo do socialismo. Todas as obras posteriores de Kautsky, Bernstein, Plekhanov e Mehring sobre este tema têm o seu ponto de partida, tanto em relação ao tema em si quanto à sua construção geral, na tese fundamental formulada por Engels em sua exposição da história do socialismo.

Mas isso não foi tudo o que Engels conseguiu na terceira seção do Anti-Dühring. Pela primeira vez desde o Manifesto Comunista, com base nas experiências da revolução de 1848, da Primeira Internacional e da Comuna de Paris, as questões fundamentais do programa, estratégia e táticas para o proletariado foram apresentadas de uma forma abrangente. Pela primeira vez foi demonstrado que o tesouro inesgotável de O Capital de Marx continha as respostas para estas perguntas. Engels, pela primeira vez, expôs completamente como o capitalismo gera e prepara todos os elementos materiais e intelectuais da futura ordem da sociedade. Na mesma seção do Anti-Dühring, pela primeira vez, a concepção marxista do papel e da

origem do Estado, já sugerida em A Ideologia Alemã, foi desenvolvida em detalhe em oposição não só a Dühring, mas também aos anarquistas, aos lassalleanos e até mesmo aos eisenachianos [isto é, os membros do partido socialdemocrata ligados ao marxismo, ndt], que não tinham sido capazes de libertar-se da influência do culto lassalleano do Estado.

Não é, de forma alguma, um acidente que um trabalho cuidadoso sobre as questões programáticas só comece após o aparecimento do Anti-Dühring. O Programa de Erfurt da socialdemocracia alemã, que em sua essência é, em parte, a obra de Engels, teria sido inconcebível se não houvesse o tremendo trabalho preparatório feito por Engels no Anti-Dühring. O mesmo pode ser dito do programa do grupo "Libertação do Trabalho" e do primeiro programa do nosso partido. A parte mais importante do livro de Engels, Do socialismo utópico ao científico que, da mesma forma que o Manifesto Comunista, é até hoje o melhor manual para dominar os fundamentos do marxismo, é tomada da terceira seção do Anti-Dühring.

No livro de Antonio Labriola, Socialism and Philosophy (Socialismo e filosofia), encontramos o seguinte pensamento:

"Cada país, infelizmente, tem o seu Dühring. Quem sabe quantos outros 'antis' poderiam ter sido escritos pelos Engels de outros países. Na minha opinião, o significado real do Anti-Dühring é que dá aos socialistas de outros países e outras línguas a possibilidade de armar-se com os métodos críticos sem os quais nenhum "Anti-" pode ser escrito, e que são essenciais para a luta contra todos aqueles que distorcem ou corrompem o socialismo em nome de vários sistemas sociológicos."

Labriola estava certo. Em cada país onde o marxismo começa a desenvolver-se, deve deixar de ser o produto de uma "criação estrangeira". O marxismo só pode triunfar em um país se for bem sucedido em explicar, com base em princípios marxistas fundamentais, as realidades concretas do país em questão; se for bem sucedido em mostrar que o método dialético, o materialismo dialético, representa um método abrangente no sentido de que a realidade concreta em questão, sejam quais forem as “qualidades particulares” com as quais se apresenta, encontra a sua explicação em si mesma, pela luta de suas contradições internas; que todas essas "características específicas" resultam do conflito interno de classe, do desenvolvimento da luta de contradições nesse ponto particular - seja ele histórico, econômico ou geográfico.

Em seu panfleto Quem são os amigos do povo? Lenin novamente enfatiza a mesma ideia, a saber, que o marxismo só pode conduzir o proletariado contra a burguesia do país em questão quando se torna para o proletariado e para a intelectualidade revolucionária uma nova filosofia comunista de mundo em oposição a todas as variedades da filosofia burguesa. O serviço imortal de Engels a este respeito - e estão corretos os que dizem que o Anti-Dühring é, depois e ao lado de O Capital, a obra marxista mais importante - é que, em oposição à filosofia burguesa de mundo, pela primeira vez foi apresentada esta filosofia comunista de mundo. Ele deixou aos marxistas posteriores a tarefa de desenvolver esta filosofia comunista de mundo com base em experiências novas e em desenvolvimento permanente, em âmbito nacional e internacional, para torná-la cada vez mais completa, mais abrangente, sem nunca esquecer que o resultado só pode ser alcançado graças à ajuda de uma arma tão incomparável quanto o método do materialismo dialético.

 
Imagem de Administrador Usuário
por Administrador Usuário - Wednesday, 21 Dec 2016, 15:42
Todo o mundo

Publicado em fevereiro de 1926 por David Riazanov

Já no Manifesto Comunista, o mercado oriental com a Índia e a China é apontado como um fator de desenvolvimento do capitalismo europeu. Foi, na verdade, do leste da Índia que o capitalismo britânico começou sua ofensiva contra a China. A Companhia das Índias Orientais usou seu monopólio de comércio com a China para fazer deste último país um mercado para a venda de ópio indiano. Como, no entanto, todos os comerciantes ingleses estavam igualmente interessados na intoxicação do povo chinês, o monopólio foi removido em 1833. A tentativa do governo chinês, em 1839, de proibir a importação de ópio produziu a chamada guerra do ópio contra a China, que Marx caracteriza em O Capital como um dos principais elos da longa cadeia de guerras comerciais nas quais, desde o século XVI, mesmo no Oriente, as nações europeias estavam engajadas. Depois que os ingleses destruíram cruelmente toda uma série de cidades chinesas e massacraram milhares de chineses para a honra do cristianismo e da civilização europeia, eles forçaram a China a assinar o tratado de Nanquim em 1842, que previa a abertura dos cinco Portos do Tratado - Kanton , Amoy, Ningpo, Xangai e Foochow, o pagamento do que era na época uma enorme indenização e a rendição da ilha de Hong Kong, que constituía a principal base do imperialismo britânico no Extremo Oriente. Seguindo o tratado de Nanquim, vieram tratados com os Estados Unidos e com a França.

A derrota na batalha com os europeus foi um duro golpe para o prestígio da dinastia Manchu que tinha sido suprema na China desde o século XVII. Entre as massas camponesas, gemendo sob o peso dos impostos e da pressão da burocracia, e que por vezes reagiam à sua sujeição com revoltas esporádicas, começava então a amadurecer um fermento de insatisfação, especialmente forte no Sudeste, onde a influência destrutiva do capital estrangeiro mais se fez sentir. A isso se somou a insatisfação da intelectualidade chinesa da época, os professores e os funcionários públicos do baixo escalão, bem como dos artesãos arruinados pela concorrência estrangeira.

Na mesma época em que, na Europa Ocidental, as ondas da revolução de 1848 atingiam o seu auge, a atividade das sociedades secretas na China também se tornava mais forte e a propaganda de novas seitas religiosas desenvolvia-se entre os camponeses. Os missionários europeus desempenharam, contra a sua vontade, o papel de galinhas com uma ninhada de patinhos. Observaram, com terror, que o cristianismo pregado por eles se enraizara entre os camponeses rebeldes na única forma militante do cristianismo, que exige igualdade neste mundo. A Europa aprendeu isso pela primeira vez através do conhecido missionário e sinólogo alemão Gutzlaff, que também foi o primeiro a fazer uma tradução chinesa da Bíblia.

Na mesma revista internacional (janeiro de 1850), na qual Marx investigou a influência da descoberta das minas de ouro californianas no desenvolvimento do mercado mundial e na qual profetizou para o Oceano Pacífico o mesmo papel que o Mediterrâneo havia desempenhado no mundo antigo, e que tinha então passado para o Oceano Atlântico, Marx também se refere às interessantes comunicações de Gutzlaff. Ele escreveu:

"O crescimento lento, mas regularmente crescente da superpopulação do país tornou, há muito tempo, as relações sociais muito opressivas para a grande maioria da nação. Em seguida vieram os ingleses e o livre comércio forçado nos cinco portos. Milhares de navios britânicos e americanos navegaram para a China e, em pouco tempo, o país ficou cheio

de mercadorias baratas britânicas e americanas. A indústria chinesa baseada no trabalho manual foi submetida à competição das máquinas. O Império Central até então inabalável experimentou uma crise social. Os impostos diminuíram, o Estado ficou à beira da falência, a população afundou em massa no pauperismo, revoltou-se, maltratou e matou os mandarins do Imperador e os sacerdotes do Fohis. O país chegou à beira da ruína, e está ameaçado por uma poderosa revolução. E há ainda mais. Entre as massas e na insurreição surgiram pessoas que apontaram para a pobreza de um lado e para a riqueza do outro e que exigiam e ainda exigem uma divisão da propriedade diferente e até mesmo a abolição total da propriedade privada. Quando Gutzlaff, depois de vinte anos de ausência, voltou às nações civilizadas e europeias, ouviu falar de socialismo e perguntou o que era. Quando lhe foi explicado, ele exclamou com consternação: "Será que jamais eu escaparei desta perniciosa doutrina? A mesma coisa vem sendo pregada há algum tempo por muitas pessoas entre as multidões na China".

"O socialismo chinês", continua Marx, "tem a mesma relação com o socialismo europeu que a filosofia chinesa com a filosofia hegeliana. De qualquer modo, é um fato intrigante que o império mais antigo e mais inabalável do mundo, em oito anos, pelas balas de canhão da burguesia inglesa tenha sido levado à véspera de uma revolução social que certamente terá os mais importantes resultados para a civilização. Quando os nossos reacionários europeus na sua viagem pela Ásia finalmente se depararem com a Grande Muralha da China, quem sabe não encontrarão, nos portões que levam ao lar da antiga reação e do antigo conservadorismo, a inscrição "República Chinesa - liberdade, Igualdade, fraternidade ". (Literary Remains, vol.3, páginas 444-5.)

O movimento sobre o qual o bom missionário Gutzlaff, o apóstolo da China, como os alemães o chamavam, deu informações aos europeus foi o precursor da grande rebelião Taiping. O líder deste movimento, Hung, conheceu o cristianismo através das traduções de Gutzlaff do antigo e novo Testamentos. Já em 1851, ele tornou-se o líder dos camponeses revoltosos. Os Taipings tomaram uma cidade após a outra. Finalmente, em março de 1853, mesmo Nanquim foi tomada, que por muito tempo permaneceu a capital do império celestial fundado por Hung. Naquela época, parecia que os Taipings também tomariam posse de Pequim dentro de alguns meses. A ocupação de Nanquim, entretanto, permaneceu o ponto o mais alto da rebelião.

Foi nesse período que Marx escreveu o artigo que apareceu no New York Tribune em 14 de junho de 1853. Naquela época, a reação foi triunfante na Europa. A Liga Comunista estava em dissolução, a revolta de Milão (fevereiro de 1853), organizada por Mazzini e seus seguidores, terminou em derrota. Marx saudou-a como o sintoma de uma crise revolucionária que se aproximava. Com um fervor ainda maior, ele cumprimentou o início do movimento revolucionário no Extremo Oriente. O contraste entre a Europa petrificada e o movimento na China, onde o movimento há tanto tempo esteve ausente, forçosamente impressionou-o. A Europa civilizada, onde tronos e altares haviam sido assaltados, estava agora ocupada com as mesas girantes1, uma moda de origem americana. "Recordemos o fato", escreveu Marx depois em O Capital, referindo-se a esses eventos, "que a China e as mesas começaram a dançar quando todo o mundo restante parecia estar parado - pour encourager les autres".

O Estado fundado por Hung ou Tjan-Wang era de caráter puramente teocrático. Depois que os Taipings e seus líderes renunciaram a toda a esperança da conquista do norte da China, procuraram assegurar-se no Sudeste, utilizando para esse fim o antagonismo entre os Manchu

e os ingleses. Quando, em 1856, uma nova guerra chinesa estourou com a Inglaterra, e mais tarde também com a França, os Taipings deixaram-se rebocar pelos imperialistas britânicos. Enquanto eles deviam suas primeiras vitórias precisamente ao fato de terem se levantado contra o jugo dos estranhos, contra os Manchu, agora eles - para salvar seu estado teocrático - fizeram causa comum com estrangeiros muito mais vingativos e traiçoeiros. Assim, o movimento Taiping, que no início teve um caráter revolucionário, torna-se um movimento reacionário que perde a simpatia das massas camponesas. Depois que os ingleses, em união com os Taipings, subjugaram o norte da China, ajudaram Beijing a afogar em sangue a insurreição Taiping.

Marx acompanhou atentamente o desenvolvimento destes acontecimentos na China e não apenas condenou, em uma série de artigos para o New York Tribune durante 1857-1859, todos os crimes dos "marinheiros civilizados", como também submeteu as estatísticas do comércio anglo-chinês a uma nova análise.

Embora Marx, no artigo mencionado, comece com o fato da rápida destruição do "modo de produção asiático" sob a influência da penetração do capitalismo inglês, e embora ainda esperasse que a iminente revolução europeia encontraria o apoio necessário no despertar do Oriente, ele chega, no entanto, à conclusão de que ele havia, inicialmente, superestimado a extensão e o ritmo das influências destrutivas do capitalismo inglês.

"A verdadeira tarefa da sociedade burguesa", escreveu Marx em 1858 numa carta a Engels, "é a criação, pelo menos em linhas gerais, de um mercado mundial e de um tipo de produção sobre essa base. Uma vez que o mundo é redondo, esta tarefa parece ter sido levada a uma conclusão com a colonização da Califórnia e da Austrália e a inclusão da China e do Japão. A questão difícil para nós é a seguinte. A revolução é iminente no continente e assumirá imediatamente um caráter socialista. Mas não será necessariamente esmagada neste pequeno canto, já que o movimento da sociedade burguesa ainda está em ascensão sobre um território muito maior? No que diz respeito à China, eu me assegurei, por uma análise aprofundada do movimento do comércio desde 1836, primeiro que o aumento das exportações inglesas e americanas em 1844-1846 revelou-se em 1847 uma pura ilusão, e também que nos dez anos que se seguiram, esta permaneceu praticamente estacionária em média, enquanto as exportações chinesas para a Inglaterra e a América aumentaram enormemente; e em segundo lugar que a abertura dos cinco portos e a ocupação de Hong Kong só resultou no comércio de Cantão passando a Xangai. Os outros "empórios" não contam. A principal causa do fracasso deste mercado parece ser o comércio de ópio, para o qual, na verdade, todo o aumento do comércio de exportação para a China é continuamente limitado. E, depois disso, a organização interna do país, a sua minúscula agricultura, etc., o que custará um enorme tempo para superar".(Correspondência de Marx e Engels, vol.2, páginas 292-3.)

Quando Marx, em 1862, reescreveu sobre o movimento Taiping (Press, 7 de julho de 1862), seu tom já era muito mais condenatório. Como já mencionado, esse movimento estava em uma fase de dissolução completa. Marx diz:

"Um pouco antes das mesas começarem a girar, a China, esse fóssil vivo, começou a se tornar revolucionária. Em si, não havia nada de extraordinário neste fenômeno, pois os impérios orientais exibem continuamente uma imutabilidade da subestrutura social combinada com trocas constantes das pessoas e raças que se apossam da superestrutura política. A China é governada por uma dinastia estrangeira. Depois de trezentos anos, por que não poderia se desenvolver um movimento para a derrubada desta dinastia? O movimento teve desde o início uma aparência religiosa, mas essa era uma característica

comum de todos os movimentos orientais. Os motivos imediatos para essa aparência eram óbvios - a interferência europeia, as guerras do ópio e a consequente queda do governo existente, o fluxo de prata para fora do país, a perturbação do equilíbrio econômico através da introdução de manufaturas estrangeiras, etc. O que me pareceu um paradoxo foi que o ópio animou em vez de amortecer. De fato, a única parte original dessa revolução foram seus líderes. São conscientes da sua tarefa, independentemente da mudança de dinastia. Eles não têm slogans. Eles representam um tormento ainda maior para as massas do povo do que para os antigos governantes. Seu motivo parece não ser nada mais do que trazer à tona, contra o marasmo conservador, formas grotescamente repulsivas de destruição, destruição sem germe de regeneração.”

Em muitos aspectos, de fato, a insurreição Taiping era uma reminiscência das guerras camponesas europeias, mesmo que fosse só pelo fato da participação do proletariado da cidade ser igualmente inexistente.

Em relação à Índia, da mesma forma que a China, Marx chegou à conclusão de que o ritmo do desenvolvimento, medido em termos de história mundial, foi muito mais lento do ponto de vista do indivíduo do que se poderia esperar. No terceiro volume de O Capital escreveu:

"O obstáculo apresentado pela solidez interna e articulação dos modos de produção nacionais pré-capitalistas à influência corrosiva do comércio é impressionantemente demonstrado nas relações dos ingleses com a Índia e a China. A ampla base do modo de produção é formada aqui pela unidade da pequena agricultura com a indústria doméstica, à qual se acrescenta, na Índia, a forma de comunas baseadas na propriedade comum da terra, que, aliás, era também a forma original na China. Na Índia, os ingleses criaram ao mesmo tempo seu poder político e econômico direto como governantes e proprietários de terras, com o propósito de destruir essas pequenas organizações econômicas. O comércio inglês exerce uma influência revolucionária sobre essas organizações e as divide apenas à medida que destrói, pelos baixos preços de seus produtos, as indústrias de fiação e tecelagem, que são uma parte arcaica e integral dessa unidade. E mesmo assim, este trabalho de dissolução ocorre muito lentamente. Prossegue ainda mais lentamente na China, onde não é apoiado por qualquer poder político direto por parte dos ingleses." (Capital, vol. III, tradução para o inglês, C.H. Kerr & Co., páginas 392-3.)

O poder de resistência do "modo de produção asiático" provou ser tão grande que se passaram várias décadas antes que o capitalismo europeu conseguisse destruir esta "Grande Muralha da China". Para ajudar o fator econômico, os baixos preços dos bens industriais, veio o fator político, uma nova série de guerras, em que o jovem imperialismo japonês desempenhou grande parte. A união indivisível da agricultura e da indústria, principal segredo da imobilidade do "modo de produção asiático", foi feita em pedaços. O campesinato chinês separou de si grandes massas de "coolies"2 e caiu cada vez mais fundo na dissolução. A emigração, que por um período serviu de válvula de escape, logo se provou impotente na luta contra a "praga do proletariado".

Atraídos pela força de trabalho barata na China, os capitalistas japoneses e britânicos começaram a trazer à existência uma grande indústria "nacional". Com efeito, produziram um proletariado industrial organizado e disciplinado, que agora se prepara para assumir a liderança de todos os pobres explorados, tanto rurais quanto urbanos.

A questão que Marx formulou há sessenta anos obteve uma resposta positiva da história. Nenhum perigo ameaça a revolução europeia do Oriente. Lá, também, o capitalismo está encontrando seus coveiros. E mesmo que a antiga Europa ainda tenha a aparência de estabilidade, a China "imobilizada", por outro lado, seguindo o exemplo da Rússia Soviética, já está dançando o revolucionário Carmagnole - Ca ira, Ca ira!


 
Todo o mundo
Os escritos póstumos de Marx e Engels foram tratados com grande negligência por aqueles cujos cuidados foram confiados. Os manuscritos estavam espalhados por Berlim, Londres e nos arquivos dos socialdemocratas alemães. A enorme biblioteca deixada por Marx e Engels ao Partido Social-Democrata alemão desapareceu quase inteiramente. Bernstein e Bebel, que eram os curadores do legado, consideravam-se seus proprietários absolutos e dispunham dos livros como bem entendessem.


Mehring foi o primeiro que, em nome do Partido, dedicou-se ao estudo desses escritos póstumos. As grandes lacunas que encontrei na coleção publicada por ele faziam necessário examinar cuidadosamente os manuscritos. As razões finais que me induziram a isso foram a incompletude e a imprecisão da "Ideologia Alemã", a referência de Engels ao manuscrito no prefácio de "Ludwig Feuerbach", os panfletos de Mehring sobre Marx, publicados em 1918 e, finalmente, a biografia de Engels, publicada em 1919 por Meyer, na qual algumas páginas referentes à "Ideologia Alemã", claramente continham descobertas.

Foi por esta razão que adiei a publicação planejada de novos volumes das obras completas de Marx e Engels (em língua russa, Ed.) e fui a Berlim para realizar o estudo do material inédito.

Meus problemas começaram em Berlim. Eu tive que arrancar o material de seu possuidor, Bernstein. Todos os documentos emprestados por ele foram fotografados. A publicação de vários documentos foi feita dependente de condições especiais.

O mais valioso e interessante entre os documentos encontrados, e até agora inédito, é o manuscrito da "Ideologia Alemã", com uma crítica da filosofia alemã depois de Hegel, e dos "verdadeiros socialistas".

Por uma comparação do manuscrito com a edição de Bernstein, tornou-se evidente que esta última não contém mais de dois quintos do manuscrito. Como desculpa para isso, Bernstein afirmou: "Os ratos tinham roído o resto".[1] Na verdade, o manuscrito não tinha sido roído por ratos, mas por Bernstein, quando ele finalmente passou para o revisionismo. Mas este manuscrito é apenas uma parte da crítica da "ideologia alemã", é a parte que contém a crítica a Stirner. A segunda parte do manuscrito, não decifrada por Bernstein, é dedicada a Feuerbach e contém uma crítica à concepção de Feuerbach sobre o "homem". Nós estamos nos esforçando para publicar este manuscrito o mais rápido possível.

Entre as notas, encontramos uma Crítica à Filosofia do Direito de Hegel e esboços para um capítulo do "Manifesto Comunista", no qual há uma crítica à literatura socialista.

Nesta coleção de notas encontramos um trabalho especial, ou “Matemática”, um fragmento filosófico, um manuscrito em grego, etc. Outros documentos contêm materiais não utilizados em "O Capital", entre outras coisas um folheto sobre a Teoria da Mais Valia. Marx quis publicar este material no quarto volume de seu principal trabalho. A imperfeição e deficiência da presente edição de "O Capital" é tão grande que, por exemplo, o terceiro volume pode, com razão, ser chamado de variação de Engels.

O material inédito que foi encontrado aqui, equivale a cerca de seis volumes.

O próximo grupo de manuscritos nos traz à vida pessoal de Marx e Engels. Eles nos revelam o vasto aprendizado e o espírito extraordinariamente sistemático e capacidade de trabalho de Marx. Engels esteve ocupado, até a morte de Marx, com a química, a física e as ciências naturais.

As cartas subsequentemente de Marx e Engels descobertas formam finalmente um considerável tesouro da literatura marxista. As cartas até agora publicadas foram editadas sem qualquer respeito pela memória de Marx e Engels. Isso pode ser ilustrado por uma longa lista de omissões. Noventa e cinco por cento das cartas de Marx já está em nossas mãos. O caso foi ainda pior com as cartas de Engels, mas eu consegui muitas dessas também de Bernstein e Kautsky.

Estas cartas chegarão ao público dentro das próximas semanas.

[1] Referência a uma frase de Engels, que afirmou que a “Ideologia Alemã” seria deixada à “crítica roedora dos ratos”, pois não estava destinada à publicação e sim a esclarecer suas próprias ideias.


 
Todo o mundo

Cuando la LIT – Cuarta Internacional decidió abrir una Escuela Marxista Internacional con el nombre de David Riazanov, percibimos que muchos compañeros no sabían exactamente quién era él. Un motivo más para recordar a quién fue, sin duda, el mayor especialista y divulgador de la obra de Marx y Engels.

Por: Francesco Ricci

Cuando leemos un libro de Marx, debemos siempre recordar que, en la mayoría de los casos, es un libro concebido y elaborado en conjunto con Engels o concluido por Engels después de la muerte de Marx. Este es un hecho bien conocido. Menos conocido es el hecho de que una parte sustancial de las obras de Marx y Engels llegó a nosotros gracias al trabajo de investigación y de supervisión de un dirigente revolucionario ruso, David Riazanov.

Entre los textos fundamentales de Marx y Engels, que debemos a la investigación, supervisión y publicación de Riazanov, están: la Tesis de doctorado de Marx sobre los atomistas griegos; Para la crítica de la filosofía del Derecho de Hegel; Los Manuscritos económicos-filosóficos de 1844; La Sagrada Familia; La ideología alemana; Los Grundisse; la última obra, inacabada, de Engels: Dialéctica de la naturaleza, la correspondencia de Marx-Engels, y muchos otros libros(1).

Incluso, debemos a Riazanov la publicación en versión integral de la breve pero famosa Introducción de Engels a Las Luchas de Clases en Francia por Marx, que fue falsificada por los reformistas y sobre el cual aún hoy, a pesar de que Riazanov publicó la versión original, aparecen leyendas que buscan imputar al General (apodo con el cual los amigos llamaban a Engels, por su pasión por asuntos militares) una supuesta conversión al gradualismo reformista en los últimos años de vida. Es gracias a Riazanov que sabemos que todo eso fue una falsificación de los dirigentes del Partido Socialdemócrata (SPD) alemán.

Un osado joven revolucionario

David Borisovich Goldendach, más conocido como Riazanov (o Ryazanov o Rjazanoff, o s en lugar de z, dependiendo del método utilizado para la transliteración), nació el 10 de marzo de 1870 en Odessa y murió el 21 de enero de 1938.

Victor Serge, que era su amigo, lo describió así: “trazos fuertes, corpulento, barba y bigotes espesos, mirar observador, testa olímpica, temperamento tempestuoso, expresiones irónicas”(2).

A los 15 años se unió a los populistas rusos del periódico Narodnaia Volia y enseguida fue preso. Pasó cinco años, esto es, su adolescencia, en la prisión. Fueron años de intenso estudio de economía e historia marxistas: la pasión por el estudio y por la lectura fue un elemento constante, regular de su vida. Varios testigos lo recuerdan como constantemente sumergido en alguna lectura, a cualquier hora del día.

Fue liberado, pero luego fue nuevamente preso y condenado a cuatro años de prisión por haber organizado un círculo marxista en Odessa.

En 1900, Riazanov es la cabeza del grupo marxista Borba (Lucha). Este es un año que marcará su vida para siempre. Fue para Berlín, para tener acceso al depósito donde el SPD (la sección alemana de la Segunda Internacional) conservaba los manuscritos de Marx y Engels. Riazanov quedó espantado al ver el desorden en que textos de tal importancia eran conservados. Más tarde sabe que parte del material está en casa de Eduard Berstein, que es el ejecutor testamentario de Engels y que, justamente en aquellos años, está envuelto en una controvertida revisión reformista del marxismo. Riazanov descubre con horror que las bibliotecas personales de Marx y Engels no fueron preservadas: así, centenas de libros con notas valiosas en los márgenes, de los dos fundadores del marxismo, se perdieron.

Volviendo para Rusia, en el II Congreso del POSDR en 1903 (que se hizo famoso por la escisión que se consumó entre bolcheviques y mencheviques), no toma partido por ninguna de las dos fracciones (en el Congreso, su pequeño grupo Borba participa con apenas un voto consultivo). En 1905, vamos a encontrarlo en San Petersburgo, envuelto en la primera Revolución Rusa, siendo uno de los fundadores del sindicato de los trabajadores ferroviarios. Luego de la derrota, él está entre los condenados a la deportación.

Después de cumplir su pena, viaja por Europa, donde alimenta aquella hambre insaciable por los textos de Marx y Engels, que sería la constante a lo largo de toda su vida. En Alemania tiene acceso a los archivos del SPD e inicia un estudio profundo sobre la Primera Internacional (sobre la cual pasará a ser el principal especialista).

Se hace amigo de Karl Kaustky y de Eduard Berstein, que eran los principales teóricos de la socialdemocracia y fueron los más próximos colaboradores de Engels en la última fase de su vida, después de la muerte de Marx. También conoce a August Bebel, el líder del SPD, que le garantiza el libre acceso al archivo del partido. Entre los nuevos amigos, Riazanov cuenta, en aquellos años también con Paul Lafargue y su esposa Laura, hija de Marx, que le proporcionan varios textos de la familia.

En los archivos del SPD y en los de la familia de Marx, donde se sumerge con entusiasmo, Riazanov encuentra importantes documentos inéditos. Kautsky, en 1910, notando la seriedad del investigador, le confía la tarea de reconstruir la correspondencia de Marx y Engels con una edición científica (3). En 1911, Riazanov descubre las diferentes versiones de la importante carta para la populista Vera Zasulich, en la cual Marx se pronuncia sobre el futuro de la revolución rusa. Tiene la posibilidad de constatar que Berstein y Mehring habían, hasta entonces, publicado la correspondencia de Marx y Engels usando muchas veces la tijera o incluso alterando expresiones que ellos juzgaban muy fuertes contra otros dirigentes.

Comenta en un ensayo: “Sería de esperar que los cuatro volúmenes de esta correspondencia fuesen publicados teniendo en cuenta criterios científicos. (…) Al contrario, la edición de la cual Berstein y Mehring son responsables estádebajo de cualquier crítica. A partir de innumerables pasajes que los editores eliminaron de la correspondencia, sin siquiera informar… No hay una carta que estas manos profanadoras no hayan intentado modificar. Las expresiones fuertes de Marx y Engels fueron dulcificadas o incluso suprimidas del texto”(4).

Su fama de historiador y de filólogo profundo de la obra de Marx se difundió. Colaboró en la revista dirigida por Kautsky, Neue Zeit. Lenin lo convidó, en 1911, para dictar cursos en la escuela para militantes en Longjumeau, que fundó en la periferia de París y que dirigía en conjunto con Nadia Kruspskaia e Inessa Armand. Allí, Riazanov dio cursos de historia del socialismo francés.

En 1915, Riazanov estuvo entre aquellos que participaron de la Conferencia de Zimmerwald. Durante la guerra vive en París, donde escribe en varios periódicos socialdemócratas y conoce a Trotsky, con quien publica el periódico Pravda.

Dirigente revolucionario en 1917

Con la explosión de la revolución, Riazanov retorna a Rusia, de Suiza, y se junta al grupo Mezharaionka (Interdistritales) en el cual participan también Ioffe, Lunacharsky, Antonov-Ovseenko, Urickij y, especialmente, Trotsky. Con la nueva orientación de Lenin para el partido (con la Tesis de Abril), son superadas las diferencias entre él y Trotsky sobre el carácter de la revolución rusa. Los Interdistritales, liderados por Trotsky, se unen en julio de 1917 al Partido Bolchevique. Los dirigentes provenientes de la organización de los Interdistritales asumen papeles importantes: Riazanov es uno de los catorce bolcheviques (entre ellos están Lenin, Trotsky, etc.) que son parte de la mayoría del presídium del Soviet en el II Congreso, cuando fue proclamada la conquista del poder.

Después de entrar en el Partido Bolchevique, Riazanov toma posiciones diferentes de las de Trotsky: mientras el último se torna de hecho el colaborador más próximo de Lenin y, con él, el líder de la revolución, Riazanov se aproxima de las posiciones de la derecha del partido, liderada por Kamenev y Zinoviev. Junto con ellos, toma una posición contraria a la insurrección y, luego de la conquista del poder, está a favor de una hipótesis de gobierno de coalición entre bolcheviques, mencheviques y socialistas revolucionarios.

En los primeros meses luego de la toma del poder, Riazanov actúa como presidente del sindicato de Petrogrado (ex San Petersburgo) y es uno de los principales responsables por el Comisariado de la Educación. En 1920, es uno de los delegados rusos para el Segundo Congreso de l Internacional Comunista (IC).

Un descubrimiento fundamental: La Ideología Alemana

Las investigaciones que Riazanov había comenzado mucho antes encuentran un nuevo apoyo en el Estado soviético recién nacido.

Riazanov retorna a Alemania donde, a pesar de la deriva reformista de los antiguos colaboradores de Engels, había mantenido una buena relación personal con Kautsky y con Berstein. Este último, luego de mucha resistencia, decide entregar a Riazanov el manuscrito completo de Die Deutsche Ideologie, La Ideologia Alemana (este es, en verdad, el título póstumo con el cual es conocido el manuscrito sin título elaborado por Marx y Engels, y que los dos habían dejado a “la crítica roedora de la ratas”).

Riazanov, inmediatamente, comprende que se trata de una obra fundamental, hasta entonces en gran parte desconocida (Lenin, por ejemplo, conocía apenas el primer capítulo, sobre Feuerbach, publicado por Engels en 1888 y después traducido al ruso por Plekhanov). Es un libro en el que la concepción materialista de la historia encuentra su primera sistematización.

Riazanov comienza un trabajo de cuño científico del texto y publica inicialmente algunos fragmentos y, después, una parte más consistente en 1926; el texto completo sería finalmente publicado en 1932, con base en el trabajo preparatorio hecho por él.

El Instituto Marx y Engels y la Mega

Lenin, que se dirigía regularmente a Riazanov cuando necesitaba de sugerencias para sus estudios sobre el marxismo (considerándolo el más profundo conocedor de Marx), le escribió, en una carta datada el 2 de febrero de 1921: “¿Podemos reunir las obras completas de Marx y Engels? ¿Es una tarea realizable?

Lenin está convencido de la importancia de ese trabajo y de la necesidad de emplear para eso los recursos del Estado revolucionario. También sabe quién es la persona correcta para esa tarea. Por eso, propuso (en enero de 1921) al Comité Central la fundación del Instituto Marx-Engels y que la dirección fuese confiada a Riazanov. Como recordaría Trotsky, Lenin tenía un gran respeto por Riazanov, y pensaba que su punto fuerte era un inmenso conocimiento de la obra de Marx, mientras su punto débil eran las posiciones políticas frecuentemente críticas por la derecha al bolchevismo.

La principal finalidad del Instituto (que fue instalado en la antigua residencia del príncipe Dolgorukov, en Moscú) era reunir y publicar las obras completas de Marx y Engels, primero en la lengua original, el alemán y, después, en ruso. Se trata del que sería después conocido como la Mega (Marx-Engles Gesamtausgabe) o las Obras Completas de Marx y Engels.

Pero el Instituto no se limita a este trabajo gigantesco, dificultado por el estado en que el SPD alemán abandonara los manuscritos de Marx y Engels. Son también abiertos varios departamentos del Instituto que se especializan en la colección de materiales sobre la historia del socialismo, sobre la filosofía, sobre la historia de diferentes países.

En los primeros años, el Instituto trabaja en competa libertad: Lenin está consciente de la necesidad de proteger la independencia de una investigación histórica que sea verdaderamente científica. Riazanov escoge, entre sus colaboradores, también a estudiosos de origen menchevique o de otras corrientes no bolcheviques: hecho que se tornará una acusación contra él apenas algunos años después, cuando la burocracia estalinista eliminaba cualquier vestigio del leninismo auténtico.

Con el total apoyo del gobierno bolchevique y con la participación directa de Lenin, la biblioteca del Instituto recoge libros y manuscritos de toda Europa. En 1925, tiene ya 15.000 volúmenes que se tornarían, en pocos años, casi medio millón. En la colección de la biblioteca constan las colecciones completas de periódicos en los cuales Marx y Engels escribieron; textos de la Primera Internacional; materiales sobre la historia del movimiento obrero en cada país. Una gran área es dedicada al “socialismo francés”, esto eso, a una de las “tres fuentes” del marxismo. Riazanov consigue recuperar los periódicos de la Gran Revolución Francesa: toda la serie de L’Ami du peuple (el periódico de Marat), delPère Duchense (el periódico de Hebert). Adquiere para el Instituto manuscritos y cartas de Babeuf, Auguste Blanqui, textos de la Comuna de 1793 y de la de 1871. Establece relaciones con estudiosos del marxismo alrededor del mundo, y en su escuela se forma una nueva generación de historiadores y estudiosos del marxismo.

El Instituto publica dos revistas especializadas en historia del movimiento obrero: la revista anual Archiv K. Marksa i F. Engel’sa (Archivo Marx y Engels) y la revista semestral Letopisi Marksizma (Anales del Marxismo). De las dos revistas rusas, se inicia también una edición alemana.

Bajo la dirección de Riazanov, el Instituto es responsable por la publicación de las obras de Karl Kaustky, de Rosa Luxemburgo y de Antonio Labriola.

Pero la tarea central del Instituto es, precisamente, la publicación de la Mega, la edición completa de las obras de los dos fundadores del marxismo, en una colaboración con el Instituto de Sociología de Frankfurt y el SPD.

En el plan original están previstos 42 volúmenes: 17 volúmenes de obras filosóficas, económicas, históricas y políticas; 13 dedicados apenas a El Capital, incluyendo fragmentos inéditos; 10 volúmenes de cartas y 2 volúmenes de índices.

En realidad, apenas 12 volúmenes serían publicados en alemán (la actividad fue interrumpida por los nazistas) y 28 en la edición en ruso, que se interrumpe en 1946 (en este caso, la interrupción es causada por los estalinistas que decapitaron a la dirección del Instituto). La República Democrática Alemana (RDA) retoma después las publicaciones, imprimiendo, de 1956 a 1968, la MEW (Marx Engels Werke) en 41 volúmenes, y que se torna un modelo para ediciones en otros idiomas. En los años setenta, la URSS y la RDA inician una nueva Mega, conocida como Mega 2, que preveía 114 volúmenes, pero el trabajo es nuevamente interrumpido por acontecimientos políticos y, finalmente, por el colapso del estalinismo. La obra fue retomada en 1998 y continúa, teniendo publicado cerca de la mitad de los libros previstos.

Sin Riazanov y sus pesquisas, sin su dedicación incansable, todo eso no habría sido posible. Eso por sí solo torna a Riazanov una figura indispensable para los revolucionarios. Pero, a su trabajo de investigación sobre textos de otros, deben adicionarse varios textos suyos de gran importancia, que deberían ser republicados porque desaparecieron de las librerías. Recordamos, entre otros:Marx y Engels (un curso de marxismo para los militantes obreros, realizado en 1922, editado en 1923); Notas para el Manifiesto (un estudio profundo delManifiesto de 1848, muy apreciado por Lenin); estudios sobre la Primera Internacional (en italiano existe una edición de 1995) y, también, innumerables artículos y ensayos de historia, de los cuales apenas una pequeña parte puede ser encontrada en varias lenguas, en el site marxists.org.

Riazanov planeaba escribir una biografía de Marx, que también rectificase las muchas imprecisiones y las evaluaciones políticamente infundadas contenidas en la de Mehring. Lamentablemente, él nunca encontró tiempo para realizar este proyecto.

Un marxista demasiado intransigente para Stalin

Luego de la muerte de Lenin, Riazanov se dedica cada vez menos a la política cotidiana y siempre más a su valioso trabajo teórico, al estudio y la publicación de la obra de Marx y Engels.

No participa activamente del embate que se abre en Rusia entre Trotsky y la burocracia estalinista. Pero no por eso deja de defender sus ideas. Es uno de los pocos que no tiene miedo de defenderlas. Incluso en el inicio de los años treinta, cuando Stalin es objeto de un verdadero culto, dice a Stalin, en público, lo que él creía de su ignorancia sobre el marxismo y del desprecio por la teoría que es hábito típico de la burocracia estalinista.

Se dice que un día Stalin fue a visitar el Instituto y en el escritorio de Riazanov notó que solo había retratos de Marx, Engels y Lenin. Por eso, preguntó a Riazanov por qué no había un retrato suyo. Riazanov dijo: “Aquellos fueron mis maestros, ¿qué es usted para mí?”(5).

Él nunca podía imaginar que, en 1953, el Instituto fundado por él modificaría su nombre por el de Instituto Marx-Engels-Lenin-Stalin.

En 1929, Riazanov no tiene ningún problema en ayudar a Trotsky, que expulsado y exiliado en Turquía precisaba complementar los escasos recursos económicos. Por lo tanto, le pidió para traducir un texto menor de Marx, Herr Vogt, al ruso, y participar de la revisión de otras traducciones. Como Deutscher escribe: “La retribución que Riazanov le pasaba, complementaba el presupuesto familiar y cubría los costos de la enorme correspondencia de Trotsky”(6).

La independencia de Riazanov se torna intolerable para el régimen estalinista, tanto más porque, justamente en aquellos años, el estalinismo no precisaba de filología marxista sino sí de una falsificación del marxismo.

Es en este contexto que la burocracia organiza uno de los muchos engaños policiales. En 1930 prende a Isaak I. Rubin, importante economista y colaborador de Riazanov, y lo acusa de una alegada “conspiración menchevique”. En la prisión, torturado, Rubin concuerda en firmar una falsa acusación contra Riazanov, involucrándolo así en la inexistente conspiración.

Con este pretexto, Stalin destituyó a Riazanov de la presidencia del Instituto Marx Engels y lo sustituyó por el más dócil Vladimir Adoratsky. Luego enseguida, Riazanov es expulsado del partido y preso (1931) por “actividades contrarrevolucionarias”. Es deportado para Saratov y sus obras son retiradas de las bibliotecas y prohibidas.

Liberado por un corto período, como resultado de una campaña internacional apoyada también por historiadores de renombre internacional como Albert Mathiez (uno de los mayores especialistas en revolución francesa), es preso nuevamente en julio de 1937. Tenía casi 70 años pero la policía de Stalin (NKVD) no duda en torturarlo para hacerle confesar su participación en una inexistente “organización terrorista” liderada por Trotsky. Quieren que Riazanov admita haber escondido los archivos de la Oposición trotskista.

Pero Riazanov se niega a acusarse a sí mismo y a los otros. Como escribió Trotsky: “Riazanov era orgánicamente incapaz de ser un cobarde”(7).

Es, entonces, condenado a muerte en un juzgamiento que duraría quince minutos y secretamente fusilado el mismo día: la noticia no se le da ni siquiera a su esposa, por su parte condenada a ocho años en un gulag, apenas por ser su esposa. Riazanov fue enterrado en una fosa común en Saratov. El día del fusilamiento fue el 21 de enero de 1938, el decimocuarto aniversario de la muerte de Lenin.

Inmediatamente después, los agentes de la NKVD van a casa de Riazanov, encargados de secuestrar sus libros y quemar todos sus papeles (entre los cuales estaban las preciosas anotaciones del estudio sobre Marx y Engels, que había acumulado a lo largo de décadas). En el escritorio de Riazanov, uno de los policías responsables por este trabajo ve una imagen que retrata al joven Engels, con una dedicatoria a Riazanov escrita por Laura Lafargue, hija de Marx. El policía pregunta a la nieta de Riazanov que presenciaba la requisición: “¿Quién es este?”. “Es Engels”, responde la nieta. Y, de nuevo, el agente de Stalin pregunta: ”¿Y quién es Engels?”.

Notas

(1) Riazanov supervisó la publicación de Diferencia entre las filosofías de la naturaleza de Demócrito y de Epicuro en 1927 (una versión parcial había sido publicada por Franz Mehring en 1902); Para la crítica de la filosofía del Derechode Hegel en 1927; Manuscritos Económicos-Filosóficos de 1844 fueron publicados en 1932 por su sucesor, Adoratsky, pero sobre la base del trabajo realzado por Riazanov; lo mismo se aplica a Los Grundisse que, resultado de una descubierta hecha por Riazanov en 1923 en Berlín, fueron por él supervisados y, finalmente, publicados en 1939-1941. En 1925, publicó la Dialéctica de la Naturaleza, obra inacabada de Engels, en una primera edición (que fue seguida por varias ediciones revistas hasta la final, publicada en 1935 en la Mega). En general, los volúmenes de la Mega publicados bajo la dirección de Adoratsky fueron el resultado del trabajo preparatorio realizado por Riazanov.

(2) Victor Serge, Memorie di un rivoluzionario [Memorias de un revolucionario] (editora Massari, Italia, 2011, pp. 212-213.

(3) Gracias al trabajo de Riazanov y de los investigadores en las décadas siguientes, conocemos hoy cerca de 4.000 cartas escritas por Marx y Engels, pero se estima (de acuerdo con el cálculo hecho a partir de las cartas de respuesta de sus interlocutores) que el número real sea de por lo menos 10.000 (2.500 de ellas entre los dos revolucionarios).

(4) Sobre la censura y cortes hechos por Mehring en la correspondencia de Marx y Engels, ver: “Communication sur l’héritage littéraire de Marx et Engels” [“Comunicación sobre la herencia literaria de Marx y Engels”] (1923), disponibles en francés en la web www.persee.fr/doc/ homso_0018-4306_1968_num_7_1_1116

En realidad, Riazanov polemizaría en varias otras ocasiones con Franz Mehring por algunas deformaciones de la historia hechas por él, que era entonces el más famoso biógrafo de Marx, además de un importante dirigente del SPD. También, él reprende a Mehring por no haber comprendido los motivos políticos de fondo que fueron la base de la expulsión de Bakunin de la Primera Internacional.

(5) El episodio es relatado en varias biografías de Riazanov: por ejemplo, en la de Beecher-Formichev (v. Nota bibliográfica).

(6) Isaac Deutscher, El Profeta desarmado (ed. Longanesi, Italia, 1961, pp. 502-503).

(7) León Trotsky, “El caso del camarada Riazanov” (artículo del 8 de marzo de 1931), en Escritos (edición digital en español, volumen 2).

Indicaciones de lectura

La bibliografía sobre Riazanov es muy reducida, su nombre fue excluido por la historiografía estalinista. No obstante, existen algunos ensayos que pueden ser leídos para saber más sobre esta figura extraordinaria.

Algunos buenos resúmenes de la vida y la obra de Riazanov son los siguientes:

– Jonathan Beecher, Valeri Fomichev, “French Socialism in Lenin’s and Stalin’s Moscow: David Riazanov and the French Archive of the Marx-Engels Institute” (en The Journal of Modern History, 78, 2006) (en inglés);

– Jean Jacques Marie, “David Riazanov, le dissident rouge”, in Cahiers du Mouvement Ouvrier, n. 3, Cermtri, 1988 (en francés);

– Hugo Eduardo da Gama Cerqueira: “David Riazanov e a edição das obras de Marx e Engels”. Universidade Federal de Minas Gerais, 2009 (se puede encontrar el pdf en internet, en portugués);

– Bud Burkhard, “D.B. Rjazanov and the Marx-Engels Institute” (in Studies in Soviet Thought, v. 30, 1985) (en inglés);

– Nicolás González Varela, “David Riazanov: humanista, editor de Marx, disidente rojo” (en español) y del mismo autor: “Marx desconocido: sobre la Ideología Alemana” (2012) (ambos textos se encuentran en pdf en internet).

Trotsky dedicó varios artículos para denunciar la represión estalinista contra Riazanov, indicamos las versiones en español:

– León Trotsky, “El caso del camarada Riazanov” (artículo del 8 marzo de 1931), en Escritos (edición digital editada por el CEIP, tomo 2);

– León Trotsky, “Una nueva calumnia contra D.B. Riazanov” (artículo del 1 de mayo de 1931), en Escritos, tomo 2;

– León Trotsky, “¿Cuál es la situación de Rakovski?” (artículo del 23 marzo de 1933), en Escritos, tomo 3 (el artículo habla de Rakovski, pero también de Riazanov).

Serge, que fue un amigo, recuerda atinadamente a Riazanov en sus memorias:

– Victor Serge, Memorie di un rivoluzionario (Massari editore, Italia, 2011).


 
Todo o mundo

Inscripción - http://sepamas.cfriazanov.org/

El CFM David Riazanov inicia sus actividades con un curso muy requerido por militantes revolucionarios y activistas de los movimientos sociales, el curso sobre la Revolución Permanente.

El Centro de Formación se apoya en una plataforma online para educación a distancia, que facilita la realización de sus cursos en cualquier lugar del mundo, necesitándose solamente una conexión a internet. Este primer curso, cuyo comienzo está previsto para el 8 de agosto, será impartido en español. Ya están en preparación versiones con subtítulos en protugués e inglés.

EL curso tiene, como base teórica, la elaboración del revolucionario ruso León Trotsky (1879-1940), que participó de la revolución rusa de 1905 y que, en la cárcel después de la derrota de ese “ensayo general”, escribió “1905- Balance y Perspectiva” donde desarrolla su primera formulación de lo que vendría a ser conocido como la “ Teoría de la Revolución Permanente”. Trotsky analiza la revolución de 1905 desde una perpectiva marxista, pero enfrentando la concepción de los marxistas de su época sobre las dos etapas de la revolución. Él afirma que, debido al sujeto social que dirigirá el proceso que derribará al Zar, la revolución democrática burguesa se transformará en socialista.

A partir de ahí, va incorporando nuevos elementos a su concepción, que son explicados durante el curso a través de videos- aulas y mini documentales, que abordan las revoluciones de 1848 y los principales procesos revolucionarios del siglo XX, como la revolución rusa de 1917 y la china de 1925-27. La bibliografia ofrecida busca consolidar los conocimientos adquiridos por los estudiantes, a partir de que estos hayan tenido los primeros contactos con la teoría.

Pero el estudio de la teoría de la revolución permanente no seria completo si no abordase las expropiaciones de la burguesía que originaron nuevos estados obreros, aunque deformados, en el Este europeo y en la revolución china de 1949, durante la pos segunda guerra mundial. Así como las revoluciones políticas en Alemanian Oriental, Polonia, Hungría y Checoslovaquia.

Debemos este estudio, así como el de las revoluciones democráticas contra dictaduras capitalistas en América Latina, al revolucionario argentino Nahuel Moreno (1924-1987), que las ubicó en el contexto de la teoria de la revolución permanente, confirmando así la validés de esa teoria-programa contra la teoría reacionaria del socialismo en un solo país , elaborada por Stalin y sus seguidores.

Puedes participar de este curso, fundamental para profundizar tu formación teórica - coordinado por Alicia Sagra, militante revolucionaria internacionalista, autora del libro La Internacional, un permanente combate contra el oportunismo y el sectarismo, y de trabajos sobre Lógica y sobre la revolución boliviana – entrando al sitio - http://sepamas.cfriazanov.org/

Los alumnos inscriptos participarán de un chat con la profesora en la semana anterior al comienzo del curso, donde podrán resolver las dudas en relación al mismo.